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Mostrando postagens de 2024

Os direitos humanos e o palhaço - Antônio Reis

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Ao amigo Donizeti Flor, em memória. No 10 de dezembro são comemorados o Dia Internacional dos Direitos Humanos e o Dia Universal do Palhaço. Quanto à primeira efeméride, bem sei, desde quando me assumi palhaço, que foi neste dia, em 1948, que uma Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Quanto à segunda, desconheço o porquê da data. Desde sempre, como a maioria dos humanos, tenho simpatia por palhaço, o artista. Seja de circo, de teatro, animador do comércio nos shoppings ou de festinha infantil. Ninguém vive em alto astral 24 horas por dia ou sete dias por semana. Todos os humanos, e até os desumanos, enfrentam doenças na família, dificuldades financeiras, problemas conjugais, dor de barriga, crises existenciais. E nisso reside a grandeza do palhaço. Só palhaço, talvez o maior profissional das artes cênicas, é capaz de levar dentro de si todas as dores do mundo, mas em troca do pão de cada dia, enfia uma máscara na cara, ...

Araçatuba aniversaria no Dia do Samba - Antônio Reis

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Araçatuba comemora 116 anos neste 2 de dezembro, Dia Nacional do Samba, mas comemora com música sertaneja. A efeméride foi escolhida porque nesse dia, no tempo do “guaraná com rolha”, Ary Barroso, então a maior expressão do samba-exaltação, visitou a capital baiana pela primeira vez. E um exaltado vereador da cidade propôs que o 2 de dezembro fosse o Dia do Samba. A homenagem, inicialmente municipal, se popularizou e ganhou vulto nacional. Assim, não seria mais autêntico Araçatuba comemorar o aniversário com shows de samba, com artistas locais que têm se mostrado competentes nos barzinhos, restaurantes, festas familiares e apresentações esporádicas? Convidar os talentos araçatubenses que ganham a vida em grandes centros e até no exterior? Seriam apresentações mais intimistas, mais autênticas e mais baratas, ainda que se pagasse bons cachês. Talvez a medíocre administração municipal quisera agradar a população araçatubense que na última eleição presidencial deu 70% de votos ao “capitã...

Presente de aniversário e leitura obrigatória - Antônio Reis

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Há exatos 30 dias do meu aniversário, ganhei um presente. Foi o único mimo de outubro, mas valeu por muitos. O presente chama-se O jornalista mais premiado do Brasil , de autoria do amigo Arnon Gomes. Um baita livro, com status de xodó, pois fui presenteado pelo próprio autor. E com direito a simpática dedicatória. O livro é a biografia de José Hamilton Ribeiro, que por mais de 60 anos se dedicou a fazer aquilo que os jornalistas mais gostam: reportagem. E para reportar a história de seu tempo, Zé Hamilton, como o autor o trata, se jogava de corpo e alma na aventura, uma delas a guerra do Vietnã, onde deixou metade da perna esquerda, dilacerada numa mina de explosivos. “O jornalista mais premiado” é uma longa reportagem que conta a história de um homem que dedicou sua vida a fazer reportagens. Um repórter reportando outro. A obra surgiu por recomendação da banca avaliadora do trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, concluído em 2004, na Unisanta, de Santos. A exemplo do veteran...

Faxina no fim de semana - Antônio Reis

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Com a previsão de chuva para o fim de semana, resolvi fazer um servicinho caseiro que há muito implorava cuidados: faxina da estante e dos livros que acumulavam uma camada de poeira da seca passada. Além de livros, na estante tem pilhas de revistas, duas câmeras fotográficas analógicas, recorte de jornais antigos, algumas peças decorativas, mochila, blocos de anotações e afins. Faxinar livros é um trabalho que me proporciona imensa satisfação. Comecei o trampo no sábado pela manhã, ali pelas 10h. Qualquer pessoa sabe, ao menos acredito, que livros são classificados nas estantes ou balcões de vendas por assunto, gênero ou autor. Apesar da regra, minha estante parecia uma cumbuca de sarapatel. Livro da Odette Costa misturado com biografia de Luís Carlos Prestes; gibi do “Fantasma” entre Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e uma “Playboy” de 1981 (cujo entrevistado era um metalúrgico de nome Luiz Inácio da Silva); a coletânea “Experimentânea 15” grudada no “Aforismos para a sabedoria de vida”...

Motorista por aplicativo, jovem e riquinho - Antônio Reis

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Não possuir carro é encarar perrengues e ainda se sentir inferiorizado. Dia desses, para ir a um evento cultural, chamei um uber, como sempre faço (uber com inicial minúscula mesmo, para ser genérico igual a todo mundo). Costumo puxar conversa com os motoristas para saber das novidades, da demanda, do porquê da demora. Desta vez, em meio à prosa, recebi uma notificação no celular. Era mensagem de uma casa de apostas online e, de imediato, manifestei minha aversão a esta atividade: “Deveria ser alvo de duras regras por parte do governo”. Pronto. Foi a senha para o jovem “empreendedor” soltar o verbo. - Discordo totalmente. Não aceito interferência do Estado em minha vida. - Mas... - Não tem mas. Eu trabalho, ganho meu dinheiro, não dependo de governo. Ainda tentei argumentar: - Nem todos têm a oportunidade que você ... - Oportunidade a gente faz. Interferência do Estado, só atrapalha. Ajuda do governo, só sustenta gente folgada. Surpreso com a retórica feita metralhadora, incisiva e bem...

Nossos ídolos ainda são os mesmos - Antônio Reis

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OUÇA: CHICO&CAETANO AO VIVO EM 1971 Na última quinta, Chico Buarque, talvez um dos maiores da MPB, completou 80 anos. Escrever sobre ele dias após a data é chover no molhado, diante de tudo o   que se falou do   compositor, escritor, dramaturgo e ativista. A novidade é, justamente, a mais óbvia de tudo: Chico fez 80 anos. Fez 80, como Caetano, Gil, Milton e Paulinho da Viola fizeram 81, pois são safra 1942/43. E que safra. Chico é o caçula desta geração, pouquinho mais velho que Bethânia, atualmente com 78, e outras duas vozes de ouro que já encerram a temporada de shows por aqui: Gal e Elis, que fariam 80 no próximo ano. A MPB continua a presentar ouvidos exigentes com gente como Chico César, Zeca Baleiro, Lenine, Mônica Salmazo, Ana Carolina, Maria Gadu e, claro, Maria Rita. Todos talentosos e talentosas (não encontrei nos dicionários adjetivo mais adequado), com público fiel, mas sem a vocação para ídolos formadores de opinião, como é a turma de 1942/1945. Os ...

Enchentes levam joias que seguradoras não protegem - Antônio Reis

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Há mais de mês chuvas, enchentes e prejuízos abalam a soberba dos gaúchos e expõem a insensibilidade do rapazinho que governa o Estado. É tragédia, sim. Anunciada, é bom que fique claro. Fatalidade, jamais. Todavia, como federalista e, acima de tudo, humanista, me engajei na corrente de solidariedade. Só quem foi vítima de enchentes sabe o significado. Além da impotência, bate nas vítimas o sentimento de revolta por saber que a desgraça poderia ter sido evitada, mas aconteceu por omissão do poder público e descaso de quem não vive nas áreas de risco. No fim de 1999 ou início de 2000, uma chuva intensa e de longa duração castigou Araçatuba, enchendo o Córrego Machado de Melo, que transbordou. As casas mais próximas, inclusive a minha, foram tomadas pela enchente. Ficamos com água pela cintura. Não digo que as águas invadiram as casas, porque as casas é que há muito haviam invadido o espaço do córrego por irresponsabilidade de quem construiu o residencial Monterrey. O empreiteiro constru...

Vivas ao trabalhador. Vivas à vida além do trabalho! - Antônio Reis

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O 1º de Maio, Dia Internacional do Trabalhador, isso mesmo, dia do trabalhador e não do trabalho, é feriado nacional e em grande parte do mundo, daí a sua dimensão internacionalista. Um dia todinho para o trabalhador chamar de seu, pois os outros 364 são do patrão. Portanto, trabalhador e trabalhadora, aproveite o feriado para fazer tudo aquilo de que mais gosta. A origem do Dia do Trabalhador remonta ao ano de 1886, quando operários norte-americanos deflagraram uma greve no dia 1º de maio. Eles reivindicavam a redução da jornada de trabalho de 12 para 8 horas diárias. Nos dias seguintes, a polícia reprimiu ferozmente as manifestações, matando uma porção de grevistas em Chicago, prendendo os líderes do protesto e condenando alguns à forca. Somente em 1919, quando a França adotou oito horas de trabalho por dia, o 1º de maio passou a ser o Dia Internacional do Trabalhador e ganhou o mundo com a nova jornada. No Brasil, a data foi oficializada em 1924. Não sei se o balconista de farmácia ...

O sensei e a cerveja que não tomamos - Antônio Reis

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Como editor de Esportes, pautei um jovem repórter, ainda estudante de Jornalismo, para uma matéria com o sensei Koji Kiwada, que acabara de se aposentar. Era matéria especial produzida no decorrer da semana para ser publicada no domingo, dia em que os jornais investem em assuntos amenos. E ninguém melhor do que Kodão, que dedicou a vida ao judô, para entreter os leitores da domingueira. Lá pelo meio da tarde, chega o foquinha com um entusiasmo que não cabia em si. Fora cativado pelo eterno medalhista de ouro, que formou uma geração de judocas, alguns de projeção nacional, iguais ao mestre. As belas fotos de outro profissional iniciante retratavam o japonês gordinho, semblante sereno, vestido a caráter (todo de branco), sentado no tatame em posição de Buda, frente a frente com o foca. Confesso que artes marciais não me atraem, mas tenho apreço pelo judô. Tenho a impressão de que seus praticantes, sejam moças ou rapazes, são pessoas práticas, que encaram o seu esporte como filosofia de...

Amante de tangos, vinhos e mulheres é tema de palestra na Academia - Antônio Reis

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Há dias anseio pela terça-feira, 9 de abril, quando o Grupo Experimental/Academia Araçatubense de Letras homenageará o poeta Aldo Campos com uma palestra do acadêmico Hélio Consolaro, que abordará vida e obra do aniversariante. O evento, às 19h30, na sede da Academia (Rua Joaquim Nabuco, 210), será público e gratuito. Pouco se sabe sobre o “poeta do amor”, como bem retratou Luiz Ortiz no prefácio da segunda edição do livro intitulado apenas “Poesias”. Apenas “Poesias”, mas com capa de Sílvio Russo. Nascido em Jaboticabal, Aldo Campos chegou a Araçatuba em 1943, aos 28 anos, para ser locutor da Rádio Cultura, à época PRI-8. Era também advogado, dos humildes e dos oprimidos, segundo seus contemporâneos. De acordo com o também poeta Adelino Moreira Marques, prefaciador da primeira edição de “Poesias”, o amigo era uma moço magro de corpo, alto de talhe, olhos azuis de envolvente suavidade, dono voz grossa e aliciante. A descrição do prefaciador, a utopia de altruísta e a origem aristocrát...

Húngaro, a língua do cramunhão - Antônio Reis

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Lá pelos distantes anos 1980, li em algum texto uma frase mais ou menos assim: “O latim é a língua para falar com Deus e o húngaro com o demônio”. Sinistro por formação política e cultural, as coisas do “lado de lá” sempre me soaram simpáticas e, graças a isso, mais tarde descobri que o húngaro é um idioma muito difícil e de rara beleza, o que me fez discordar da comparação e de sua finalidade. Além da língua, a Hungria deu ao mundo coisas belas e complexas. Trata-se de um país menor que Santa Catarina, que na primeira metade dos anos 1950 encantou o planeta com um futebol maravilhoso, mas perdeu as duas Copas disputadas. Ferenc Puskás é um dos maiores de todos os tempos e seu nome virou prêmio para o gol mais bonito do ano. A música erudita deve reverência à Hungria, que legou a essa arte os talentos de Béla Bartók (1881-1945) e de Franz Liszt (século 19). O primeiro nasceu numa cidade de nome impronunciável para quem fala português (Nagyszentmiklós) e dedicou parte de sua vida à músi...

Golpe e escola com partido nunca mais - Antônio Reis

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Neste de 31 de março o golpe militar de 1964 completa 60 anos. Por muito tempo foi comemorado nas escolas, que repassavam à criançada a versão dos vencedores, os golpistas. Com a redemocratização do País, a data caiu na vala do esquecimento. As comemorações, no entanto, emergiram do esgoto no governo passado (2019-2022), principalmente nos círculos militares, nos grupos de alienados e dos mal-intencionados. Lembro-me dos meus primeiros anos escolares, na década 1970, os anos de chumbo, quando éramos obrigados a cantar o Hino Nacional todas as sextas-feiras após as aulas. Havia declamação de quadrinhas rimadas exaltando “valores patrióticos” e heróis nacionais, que mais tarde descobri não serem tão heróis assim. Quando completou dez anos, em 1974, o 31 de março foi comemorado com uma semana de cantoria. À época, a maçante “Eu te amo meu Brasil”, dos medíocres Dom e Ravel, impulsionada pelos milicos, fazia sucesso com “Os Incríveis”, cuja expetise era músicas enfadonhas. E tínhamos de c...

Mãenhê, vou pra Palestina - Antônio Reis

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Enfermeiro recém-formado, Maykel Rodrigo chegou em casa estabanado e feliz por ter arrumado emprego depois de muito bater cabeça. O rosto claro do rapaz de 23 anos gotejava suor. Ansioso por um banho e cantarolando a todos os pulmões “Me devolve pros rolês”, sucesso de Zé Neto e Cristiano, arrancou a camiseta exibindo barriga e costas tatuadas acima da cintura. - Que foi, filho? Qual o motivo de tanta animação? Perguntou a mãe, uma senhora de pele branca, cabelos claros, quase loira, de uns 50 ou pouco mais, de estatura mediana, quilinhos a mais e cara de quem busca a salvação eterna a todo instante. O rapaz abraçou-a, em seguida deu um passo atrás, segurou-a pelos ombros e encarando-a com firmeza explicou a euforia. - Mãe, vou pra Palestina. Fui contratado por um hospital para trabalhar na ala de emergência e de feridos graves. Não é maravilhoso, poder ajudar as pessoas, salvar vidas?   - Tá de brincadeira... - Tô não, mãe. Tô é empregado depois de tanto tempo.   ...

São José, o santo da discrição e dos trabalhadores - Antônio Reis

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Não sou dado às coisas religiosas e nem à hagiografia, a ciência que estuda a vida dos santos, talvez por não ser um deles. Todavia, nunca me esqueço de que 19 de março é Dia de São José e, de acordo com a crença cristã, o carpinteiro era pai de Jesus. É protetor dos trabalhadores e da família, além de ser padroeiro de um sem-número de municípios Brasil afora. No Ceará é feriado estadual. Quando criança ficava encafifado porque a Santo Antônio, São João e São Pedro se fazia festança, com foguetório, fogueira, comilança, algazarra e quentão, a famosa mistura de cachaça com gengibre. E no Dia de São José, coitado, nem sequer macarronada temperada com colorau. Ao fim da adolescência, descobri que José é um santo relacionado à discrição, ao recolhimento e à obediência às leis judaicas. Talvez pelo papel que coube ao carpinteiro, segundo a fé cristã, de ser marido de uma virgem grávida e depois agir na surdina para proteger o filho, tenha moldado seu comportamento social, o que explicaria ...

Talibanização da cultura - Antônio Reis

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Muito já se falou, ou melhor, se escreveu sobre a censura ao livro “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório, a ponto de despertar meu interesse para lê-lo e para escrever sobre o assunto. De acordo com as últimas notícias, a procura pela obra teve crescimento de 1.400% nas livrarias, o que é alentador, mas não elimina o cancro do tecido canceroso. O racismo e a violência são os temas centrais do romance: “Um rapaz negro teve o pai, um professor de literatura também negro, assassinado pela polícia em Porto Alegre”. Permeando os temas centrais, há trechos eróticos com linguagem crua exaltando a beleza e a sensualidade da pele negra. “O avesso da pele” é ganhador de um Jabuti, o mais famoso prêmio de literatura do Brasil. A gronga toda começou quando uma diretora de escola de Santa Cruz do Sul (RS) pediu ao Ministério da Educação o recolhimento do livro alegando vocabulário de baixo nível e vulgaridade. As acusações da mestra são expressões populares comuns aos simples mortais e em filme...

E o Febeapá continua - Antônio Reis

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“Se você não acredita que o reino do Céu é aqui, repare então como os pobres de espírito se divertem”. A sentença é de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto que, se vivo estivesse, seria catalogado como artista multimídia, dado o seu talento de jornalista, radialista, humorista, publicitário, teatrólogo e escritor. Ah, também era exímio praticante do alterocopismo. O debochado carioca se notabilizou por suas crônicas diárias nos jornais do Rio de Janeiro nos anos 1950/60. As crônicas reunidas em livro renderam três volumes do Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País). O autor registrava no dia a dia a cômica ignorância nacional envolvendo políticos, generais, policiais, religiosos, intelectuais, servidores públicos da alta esfera. O auge do Febeapá foi após o 31 de março de 1964, que entrou para a história oficial como revolução, mas que o cronista jurava ter sido em 1º de abril, e deu-lhe o nome de “redentora”, a ditadura que veio para nos livrar de todos...