Amante de tangos, vinhos e mulheres é tema de palestra na Academia - Antônio Reis



Há dias anseio pela terça-feira, 9 de abril, quando o Grupo Experimental/Academia Araçatubense de Letras homenageará o poeta Aldo Campos com uma palestra do acadêmico Hélio Consolaro, que abordará vida e obra do aniversariante. O evento, às 19h30, na sede da Academia (Rua Joaquim Nabuco, 210), será público e gratuito.

Pouco se sabe sobre o “poeta do amor”, como bem retratou Luiz Ortiz no prefácio da segunda edição do livro intitulado apenas “Poesias”. Apenas “Poesias”, mas com capa de Sílvio Russo. Nascido em Jaboticabal, Aldo Campos chegou a Araçatuba em 1943, aos 28 anos, para ser locutor da Rádio Cultura, à época PRI-8. Era também advogado, dos humildes e dos oprimidos, segundo seus contemporâneos.

De acordo com o também poeta Adelino Moreira Marques, prefaciador da primeira edição de “Poesias”, o amigo era uma moço magro de corpo, alto de talhe, olhos azuis de envolvente suavidade, dono voz grossa e aliciante. A descrição do prefaciador, a utopia de altruísta e a origem aristocrática moldaram a vida do poeta em Araçatuba, onde curtiu sua solteirice: “Talvez Aldo Campos tenha sido o fundador da boêmia romântica de Araçatuba. Antes dele a noite era vazia, sem alma, sem sentimento - cheia de pecado”, nas palavras do escritor Eddio Castanheira.

“Meu amigo foi um autêntico boêmio, amando os tangos, o vinho e as mulheres”, destacou Adelino, no prefácio da primeira edição de “Poesias”, o único de Aldo Campos, publicado por iniciativa dos amigos após a sua morte. O cartão de apresentação é confirmado nos primeiros versos do soneto “Decadência de um D. João”, escrito num domingo de maio de 1945.

Eu também como vós já fui amado,
Fui como vós poeta e trovador.
Nos salões da nobreza disputado,
Fui D. João no reino do amor!

Contestador, inconformado com hipocrisias, altruísta e milionário em virtudes morais, conforme os amigos, e possivelmente decepcionado com o mundo que o cercava, versejou angustia e pessimismo à Augusto dos Anjos, como nas estrofes de “Estupidez de um ébrio”, de outubro de 42.

Eu durmo nas sarjetas porque quero,
Há pouso fácil no tugúrio imundo!
É que eu preciso desprezar a vida,
É que eu preciso escarrar no mundo!

........................................................

Pois, neste mundo nada é impossível!
Basta pôr no meu bolso algum dinheiro
Que, embora possa parecer incrível,
Eu compro a honra deste mundo inteiro!

O boêmio, locutor, poeta e advogado foi também grande orador, segundo seus contemporâneos, e elegeu-se vereador nos anos 1950. Isso mesmo. No antigamente, quando não havia remuneração, vereador araçatubense era letrado e com dom da oratória.

A palestra de terça-feira será proferida pelo ocupante da cadeira 18 da Academia, que tem como patrono o moço de olhos azuis que fagoteava nos salões de tango. Quando eleito acadêmico, Hélio Consolaro teve a oportunidade de escolher o seu patrono e optou por valorizar um autor local, com o qual tinha afinidade. Embora seja conhecido como cronista, o Consa tem um livro de poemas e também foi vereador.

O amante de tangos, vinhos e mulheres encontrou resistência na desde sempre na conservadora Araçatuba. Ele é nome de rua por ter sido vereador, apesar de ter feito história como poeta, e dos bons. No dia 29 de novembro de 1957 foi colocado um ponto final em seus poemas e então retornou a Jaboticabal.


Antônio Reis é jornalista em Araçatuba, 
atualmente se dedica a assessoria de 
comunicação, é fotógrafo diletante e
ativista do Grupo Experimental.

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