Húngaro, a língua do cramunhão - Antônio Reis



Lá pelos distantes anos 1980, li em algum texto uma frase mais ou menos assim: “O latim é a língua para falar com Deus e o húngaro com o demônio”. Sinistro por formação política e cultural, as coisas do “lado de lá” sempre me soaram simpáticas e, graças a isso, mais tarde descobri que o húngaro é um idioma muito difícil e de rara beleza, o que me fez discordar da comparação e de sua finalidade.

Além da língua, a Hungria deu ao mundo coisas belas e complexas. Trata-se de um país menor que Santa Catarina, que na primeira metade dos anos 1950 encantou o planeta com um futebol maravilhoso, mas perdeu as duas Copas disputadas. Ferenc Puskás é um dos maiores de todos os tempos e seu nome virou prêmio para o gol mais bonito do ano.

A música erudita deve reverência à Hungria, que legou a essa arte os talentos de Béla Bartók (1881-1945) e de Franz Liszt (século 19). O primeiro nasceu numa cidade de nome impronunciável para quem fala português (Nagyszentmiklós) e dedicou parte de sua vida à música cigana. Liszt é de um vilarejo de nome mais simples (Doborján) e foi considerado o pianista mais talentoso de sua época.

Chico Buarque emplacou um romance ambientado na capital húngara, Budapeste, onde nasceu Rónai Pál, rebatizado no Brasil como Paulo Rónai, brilhante intelectual que se destacou como tradutor, ensaísta, crítico e professor de literatura.

E por falar em literatura, o romancista Imre Kertész foi Prêmio Nobel em 2002. O idioma para bater papo com o demo tem Nobel, enquanto o português brasileiro, surgido do latim com que se fala com Deus, nunca teve autor reconhecido pela Academia de Estocolmo. Contradições entre o mal e o bem, típicas da literatura.

Todavia, a Hungria é reconhecida não só pelas coisas boas e belas. No início do século passado, meteram bala num sujeito que, embora nascido na Áustria, ocupava o cargo de príncipe do Império Austro-Húngaro, levando à conflagração do primeiro conflito de proporção mundial.

O pequeno país europeu, em que pese sua história e cultura, estava meio escanteado. De repente, a imprensa brasileira inunda o noticiário com uma história esquisita envolvendo embaixada, tentativa de fuga, espionagem, demissão de funcionários e “diálogo com país-irmão”. Depois de pensar, repensar e lembrar do que li na distante década de 1980, hoje concordo que o húngaro é a língua para falar com demônios e é através dela que se comunicam.


Antônio Reis
é jornalista em Araçatuba, 
atualmente se dedica a assessoria de
comunicação, é fotógrafo diletante e 
ativista do Grupo Experimental.

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