Mãenhê, vou pra Palestina - Antônio Reis

Enfermeiro recém-formado, Maykel Rodrigo chegou em casa estabanado e feliz por ter arrumado emprego depois de muito bater cabeça. O rosto claro do rapaz de 23 anos gotejava suor. Ansioso por um banho e cantarolando a todos os pulmões “Me devolve pros rolês”, sucesso de Zé Neto e Cristiano, arrancou a camiseta exibindo barriga e costas tatuadas acima da cintura.

- Que foi, filho? Qual o motivo de tanta animação?
Perguntou a mãe, uma senhora de pele branca, cabelos claros, quase loira, de uns 50 ou pouco mais, de estatura mediana, quilinhos a mais e cara de quem busca a salvação eterna a todo instante.

O rapaz abraçou-a, em seguida deu um passo atrás, segurou-a pelos ombros e encarando-a com firmeza explicou a euforia.

- Mãe, vou pra Palestina. Fui contratado por um hospital para trabalhar na ala de emergência e de feridos graves. Não é maravilhoso, poder ajudar as pessoas, salvar vidas?

 

- Tá de brincadeira...

- Tô não, mãe. Tô é empregado depois de tanto tempo.  

- Filho, mas por que a Palestina?

- Por que, mãe? Porque não sou dessa gente folgada, que só quer trabalhar pertinho de casa, que não quer ralar, que prefere zona do conforto. Gente cheia de mimimi feito o tio Toninho, que antes de começar já quer o endereço do sindicato, carteira assinada, participação nos lucros e resultados...

 

A mãe, quase chorando:

- Maykel Rodrigo, você não tem medo?

- De que, mãe? Nunca tive medo de trabalhar...

- Medo de bombas, tiros, morte de culpados e de inocentes, fome por falta de alimentos.

A mãe evitou dizer que há falta de alimentos porque soldados de Israel impedem a entrada de ajuda humanitária.      

 

- Mãe, morte de culpados e de inocentes por tiros tem em todos os lugares. Não vê o que polícia do Tarcísio tá fazendo no litoral de São Paulo? Ah, falta de alimentos é queixa dos mimizentos. Tendo dinheiro, tem alimentos.

- Filhinho, pense bem. Você é namorador e lá as mulheres usam burca. Você gosta de cerveja e lá proibido bebida alcoólica.

- Mãe, a Palestina é sim carente de muitos prazeres comuns a nós, mas lá existe alguns espaços com os mesmos costumes daqui, justamente para atender pessoas de fora, que estão a passeio ou a trabalho. Também posso curtir minhas farras no entorno da Palestina.

 

Quase se descabelando e em prantos, a mãe prosseguiu.

- Meu Deus, só pode ser um pesadelo. Pra qual Palestina você vai? Aquilo lá é um rolo, que não entendo. Tem um lugar que soa nome de lanche, uma tal de X-Jordania, que não é Palestina mas onde mora um monte de palestinos.

-  A moça da agência de empregos disse que a vaga é para um hospital na Palestina e ponto.

- Poxa, Maykel. Como vou dizer pras minhas amigas cristãs que meu filho se juntou aos inimigos da Terra Santa? Ainda bem que você desistiu de tatuar a estrela de Davi no antebraço e preferiu um dragão.

- Estrela de Davi? Como assim, mãe?

- Viu aquela bandeira que levei na manifestação dos patriotas? Ela é  branca e no centro tem uma estrela azul com seis pontas. É a estrela de Davi, que acompanhou Jesus nos seus desígnios em Israel, que por isso é chamada Terra Santa e se prepara para a volta do nosso Salvador.

 

- E o que tem a ver bandeira, patriotas, Jesus, Terra Santa com a miiiiinha Palestina?

- Porque na suuuuua Palestina vive o povo do mal chamado Hamas, que quer impedir a volta de Jesus e por isso comete atentado terrorista contra a Terra Santa. E para se defender e garantir a volta do Messias, o governo da Terra Santa mandou o exército entrar na Palestina e matar crianças, mulheres, idosos; bombardear hospitais, impedir que remédios e alimentos cheguem até aquele povo amaldiçoado.

- Mãe, deve ser fake. Você acredita em tudo que suas amigas cristãs enviam apelo WhatsApp.

- Não é fake, não. Não assiste televisão? O que você vê quando passa horas no celular? Como está mesmo decidido, já providenciou o passaporte?

- Passaporte? Que passaporte?

- Ora, não sabe que para sair do Brasil e entrar em outro país precisa de passaporte?

- Mãe, Palestina fica a 500 quilômetros daqui, do ladinho de São José do Rio Preto.


Antônio Reis é jornalista em Araçatuba,
atualmente se dedica a assessoria de
comunicação, é fotógrafo diletante
e voluntário do Grupo Experimental

 


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