São José, o santo da discrição e dos trabalhadores - Antônio Reis

Não sou dado às coisas religiosas e nem à hagiografia, a ciência que estuda a vida dos santos, talvez por não ser um deles. Todavia, nunca me esqueço de que 19 de março é Dia de São José e, de acordo com a crença cristã, o carpinteiro era pai de Jesus. É protetor dos trabalhadores e da família, além de ser padroeiro de um sem-número de municípios Brasil afora. No Ceará é feriado estadual.


Quando criança ficava encafifado porque a Santo Antônio, São João e São Pedro se fazia festança, com foguetório, fogueira, comilança, algazarra e quentão, a famosa mistura de cachaça com gengibre. E no Dia de São José, coitado, nem sequer macarronada temperada com colorau. Ao fim da adolescência, descobri que José é um santo relacionado à discrição, ao recolhimento e à obediência às leis judaicas.

Talvez pelo papel que coube ao carpinteiro, segundo a fé cristã, de ser marido de uma virgem grávida e depois agir na surdina para proteger o filho, tenha moldado seu comportamento social, o que explicaria seu status e seu dia normalmente ser marcado por missas solenes, procissões, novenas e retiros espirituais, diferente dos badalados Antônio, João e Pedro.

Quando adulto jovem, em meus estudos de cultura nordestina, soube que os sertanejos do semiárido, em meio a simpatias e orações, esperam por chuva até 19 de março. Se não chover de setembro até esse dia, pode abandonar o roçado, arrumar a matula, montar num pau de arara com a família e as cuias de farinha, e rumar para o Sul. Os próximos doze meses serão ruins de chuva.

A literatura, a música, o cinema e a sabedoria popular que versam sobre seca no Nordeste e suas consequências são fartas, mas o poema “Triste partida”, do cearense Patativa do Assaré, musicado por Luís Gonzaga, merece ser lembrado pela beleza dramática, principalmente na interpretação do Rei do Baião e seu filho Gonzaguinha.

Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz "isso é castigo"
Não chove mais não

Apela pra março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Senhor São José

Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé

Ao longo do poema, nos quase sete minutos de música, Patativa descreve a saga daquele povo fugindo da seca: a esperança de chuva, a sofrida viagem, a chegada a São Paulo, a saudade da terra natal, a expectativa de uma vida melhor e a exploração do patrão no emprego conseguido a duras penas. O bardo denuncia que o sofrimento do nordestino não é só a seca, mas a seca somada à exploração da mão de obra e a consequente desigualdade social.

Distante da terra
Tão seca, mas boa
Exposto à garoa
A lama e o baú

Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul.

Minha intimidade com coisas religiosas, como já foi dito neste texto, não é merecedora de atenção. Mas pelos motivos que me levaram a escrever “São José, o santo da discrição e dos trabalhadores”, ficaria feliz se o pai de Jesus fosse também protetor dos retirantes. A canga de espinhos que carregam faz deles merecedores da honraria.


Antônio Reis é jornalista em Araçatuba,
atualmente se dedica a assessoria de
comunicação, é fotógrafo diletante
e voluntário do Grupo Experimental.

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