Talibanização da cultura - Antônio Reis
Muito já se falou, ou melhor, se escreveu sobre a censura ao livro “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório, a ponto de despertar meu interesse para lê-lo e para escrever sobre o assunto. De acordo com as últimas notícias, a procura pela obra teve crescimento de 1.400% nas livrarias, o que é alentador, mas não elimina o cancro do tecido canceroso.
O racismo e a violência são os temas centrais do romance: “Um rapaz negro teve o pai, um professor de literatura também negro, assassinado pela polícia em Porto Alegre”. Permeando os temas centrais, há trechos eróticos com linguagem crua exaltando a beleza e a sensualidade da pele negra. “O avesso da pele” é ganhador de um Jabuti, o mais famoso prêmio de literatura do Brasil.
A gronga toda começou quando uma diretora de escola de Santa Cruz do Sul (RS) pediu ao Ministério da Educação o recolhimento do livro alegando vocabulário de baixo nível e vulgaridade. As acusações da mestra são expressões populares comuns aos simples mortais e em filmes eróticos. Pelo exposto (racismo, violência policial e exaltação da beleza negra) é possível imaginar quem são os incomodados com o trabalho de Tenório.
“O avesso da pele” consta do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) e chegou à biblioteca da incomodada diretora solicitado pela própria, segundo a Companhia das Letras, editora do romance. O contra-ataque da editora deixa claro: A pessoa responsável pelo pedido da obra o fez sem conhecê-la.
Depois de a diretora ter sapateado nas redes sociais, a choldra encarregada da talibanização do País se alvoroçou. O livro foi censurado nas escolas de Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul. Um governador, que se notabilizou pela truculenta verborragia ruralista, cujo nome nem merece ser citado, catalogou o romance como promiscuidade plena. "Eu nem tive a coragem de ler, eu li o pedaço que foi publicado nas redes sociais". As Secretarias Estaduais de Educação destes Estados “analisam” a possibilidade de manter a censura ou não.
Políticos de quinta categoria, que fizeram fama nas manifestações de 2013, logo dispararam veneno em direção ao atual governo federal, e mais uma vez a realidade lhes fez a famosa pergunta: “O senhor (ou a senhora) quer passar a vergonha no débito ou no crédito?”. A inclusão do romance de Tenório no PNLD se deu no governo anterior.
A talibanização da política, da cultura e dos costumes no Brasil se fortaleceu com as cegas manifestações de 2013, mas seus adeptos sempre existiram, haja vista a censura e apreensão de obras artísticas durante a ditadura militar. E quem do mundo dos livros desconhece a fogueira que Getúlio Vargas fez com “Capitães de Areia”, um dos mais famosos de Jorge Amado e um dos maiores clássicos das nossas letras? A queima foi em praça pública, em território militar, em 1937, e assistida por homens fardados.
Cá em Araçatuba também teve ato talibanesco em meados dos anos 1980, quando uma escola da rede particular adotou um livro de História do Brasil, cujo autor não estava entre os golpistas de 1964. Um pai de aluno indignado com o “conteúdo perigoso” (texto e bandeiras vermelhas) sapateou à sua maneira, já que à época não existiam Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp, Telegram e outros. Foi à escola, protestou, organizou uma micareta em frente ao estabelecimento de ensino junto com outros pais e mães indignados.
Comecei este texto ressaltando o tanto que já se falou e se escreveu sobre o ataque fundamentalista a uma obra literária e, mesmo assim, decidi dar meu pitaco. Acho importante marcar posição quando o assunto é retrocesso cultural, político e social, embora conhecendo a valsa da história, o dois pra lá e dois pra cá. O que revolta, no entanto, é lembrar que a recaída atual começou há pouco mais de dez anos por causa de vinte centavos.
Antônio Reis é jornalista em Araçatuba,
atualmente se dedica a assessoria de
comunicação, é fotógrafo diletante
e participa do Grupo Experimental.

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