Faxina no fim de semana - Antônio Reis
Com a previsão de chuva para o fim de semana, resolvi fazer um servicinho caseiro que há muito implorava cuidados: faxina da estante e dos livros que acumulavam uma camada de poeira da seca passada.
Além de livros, na estante tem pilhas de revistas, duas câmeras fotográficas analógicas, recorte de jornais antigos, algumas peças decorativas, mochila, blocos de anotações e afins. Faxinar livros é um trabalho que me proporciona imensa satisfação.
Comecei o trampo no sábado pela manhã, ali pelas 10h. Qualquer pessoa sabe, ao menos acredito, que livros são classificados nas estantes ou balcões de vendas por assunto, gênero ou autor.
Apesar da regra, minha estante parecia uma cumbuca de sarapatel. Livro da Odette Costa misturado com biografia de Luís Carlos Prestes; gibi do “Fantasma” entre Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e uma “Playboy” de 1981 (cujo entrevistado era um metalúrgico de nome Luiz Inácio da Silva); a coletânea “Experimentânea 15” grudada no “Aforismos para a sabedoria de vida”, de Schopenhauer.
“Minha vida em versos e prosas”, do poeta do cerrado Hosanah Spindola, junto com “Idade da razão” do existencialista francês Sartre. Uma caneta BIC vermelha feito marca-página em “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo. Num cantinho da estante, o Novo Testamento, modelo de bolso, do tamanho da minha fé.
Limpar livros é prazeroso porque relembramos trechos de um romance lido há décadas ou folheamos obras que jamais vamos ler. Encontramos cartas, bilhetes (às vezes em guardanapo de boteco) ou cartão de Natal de pessoas queridas entre as páginas de um manual dos anos escolares. Aquele poema de Bandeira ou Drummond que já havíamos esquecido.
E o tempo voa. Uma refeiçãozinha rápida para não perder o embalo da magia e, de repente, já é tardezinha de sábado, melhor hora da semana para ouvir Elton John cantar Sacrifice. E para completar o happy hour caseiro, nada melhor que uma cerveja. E o sabadão termina com a faxina pela metade.
Repito o ritual no dia seguinte, quando o domingo e a faxina terminam quase juntos, sem chuva. Restaram poucos minutos para escrever uma crônica. Meu apego à leitura e aos livros de papel é um prazer raramente proporcionado pela tecnologia. Não sou resistente às inovações, mas os e-books não me garantem a mesma satisfação, mesmo porque são incapazes de acumular poeira.
(*) Antônio Reis é jornalista
em Araçatuba, fotógrafo
diletante e ativista cultural.

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