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Mostrando postagens de 2022

Pelé, Jesus Cristo e os Beatles - Antônio Reis

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Certa vez, John Lennon afirmou que Os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo. A declaração fez com que enfrentasse um tsunami de críticas, que duram até hoje. A afirmativa não é nenhuma heresia, afinal, os rapazes de Liverpool eram populares nos cinco continentes, enquanto a popularidade de Jesus é praticamente nula no mundo árabe, na Indochina e no Japão.   Acompanhando o noticiário deste fim de ano, concluo que Pelé foi mais popular do que os Beatles. Se a banda de rock tem músicas nas listas das mais executadas de todos os tempos, Pelé foi capaz de parar uma guerra civil na África, pois a população local queria assistir ao jogo do Santos que por lá excursionava.    Se os quatro cabeludos de Liverpool foram condecorados pela rainha Elizabeth, que lhes concedeu título de nobreza na monarquia britânica, Pelé foi bajulado por sete presidentes dos Estados Unidos e por mandatários de onde quer que fosse, e de quebra teve encontro com três papas. Do tsunami de ...

Vigília no Tiro de Guerra - Antônio Reis

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Muitos vão torcer o nariz e outros ficarão surpresos. Mas admito sem constrangimento: “Fiz, sim, vigília no quartel do Tiro de Guerra”. Foram dias e noites, domingos e feriados, enfrentando sol a pino, chuva e frio. Pela pátria, fiz minha obrigação. Marchei, cantei o Hino Nacional a plenos pulmões, bati continência, reverenciei a nossa Bandeira. Convenci a família a me acompanhar numa manhã para engrossar o número de manifestantes. Não posso me arrepender. Foi em 1982. Prestei o Serviço Militar no ano da primeira eleição para governador de Estado depois do golpe de 1964. Em 1982, a ditadura estava nos estertores, e as perspectivas eram boas para os setores progressistas sufocados por quase duas décadas. Um fato inédito naquela eleição era um operário na disputa e empolgando a muita gente, inclusive a mim. Eu não queria servir o Exército, lema que mais tarde Raul Seixas transformaria em canção, das mais debochadas de sua lavra. Mas não teve jeito, fui obrigado a raspar a cabeleira ao ...

Batida de vinho com pêssego - Antônio Reis

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Sabe aquele vinho barato, o pêssego em calda e o leite condensado que vieram na sua cesta de Natal? Então, tudo misturado e batido com gelo dá um saboroso drinque, ideal para uma tarde/noite de domingo, horário em que costumo me dedicar à escrita de crônicas, embora nem sempre as publique. O drinque vinho/pêssego/leite condensado experimentei há muitos anos na Raízes (livraria durante o dia e bar à noite, que poderia ser o contrário dependendo das circunstâncias). O estabelecimento ficava na Bernardinho de Campos, Centro de Araçatuba, em frente à escola Cristiano Olsen. Os proprietários eram Ruy Barbosa dos Santos e Antônio Folquito Verona. Meados dos anos 1980. A Raízes foi um dos ambientes alternativos mais aconchegantes que Araçatuba já conheceu. Além de livros então encontrados só nas boas livrarias de São Paulo e das grandes cidades, oferecia aos frequentadores sala para assistir filmes em videocassete, o máximo em tecnologia para a época e nem tão acessível a todos. O bar? Be...

Chorar novos choros - Antônio Reis

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Encerrada a Copa do Mundo do Catar, com a Argentina merecidamente campeã, ponho-me a pensar no que realmente a Seleção Brasileira significa para o País. Deve ser respeitada como um símbolo nacional (Bandeira e Hino, por exemplo)? É uma nação que luta para não ser ofuscada por outra cultura que comemora gols de outra maneira? “É a pátria de chuteiras?”, eternizada por Nélson Rodrigues? Seja qual for a resposta, a Seleção Brasileira de Pia Sundhage e Bia Zaneratto não deveria receber o mesmo tratamento da Seleção de Tite e Neymar, já que também representa o País, usa a mesma camisa amarela e calça chuteiras? Se exaltar o sucesso ou lamentar o fracasso da Seleção masculina faz parte do patriotismo esportivo, ignorar até mesmo o adversário da Seleção feminina numa Copa do Mundo não é antipatriotismo? Acostumado a dancinhas de fair play duvidoso, o País acompanhou pelos jornais, portais de notícias, televisão e redes sociais o choro dos  marmanjos diante da desclassificação para a C...

15 de outubro, dia das malcasadas! - Antônio Reis

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Quando comecei a estudar, em 1971, a charrete era o meio de transporte das professoras do Sesi 351, de Araçatuba. Todas elas, a maioria jovenzinhas, tinham o seu charreteiro particular que as levavam e buscavam no trabalho. Na escola, havia apenas um professor, o “seo” Gaspar e, salvo engano, já possuía o seu “Fusquinha”. Sabe como é, né? Homem merece ganhar mais, pois mulher “fica grávida”. A diretora da escola, a dona Clarice Pereira do Amaral, essa sim, tinha carro. Não sei se as charretes eram a realidade das demais escolas do município, quero até crer que não. Só sei que dois anos depois, os charreteiros perderam a clientela. Todas as professoras do Sesi 351 já tinham o seu automóvel, corria o ano de 1973, auge do milagre econômico e da ditadura militar. Só anos mais tarde fui entender a “ascensão” das profas. Não tardou, veio a crise mundial do petróleo e a contenção de despesas levou as mestras a dividirem o carro com o marido, que as deixavam na escola antes de seguirem p...

Um chope pra distrair - Antônio Reis (*)

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Um dois mais inspirados compositores de MPB (Música Pra-pular Brasileira), Paulo Diniz ensinou que nada melhor para relaxar do que um chope no fim da tarde. O cantor de voz rouca e letras geralmente divertidas foi embora pra Pasárgada em junho, quando contava 82 anos, mas seu conselho permanece vivo e necessário. O desaparecimento do pernambucano de Pesqueira passou despercebido pela “grande mídia”, como foram seus últimos anos, intercalados de isolamento e lançamentos de alguns trabalhos, sempre com o suingue que o caracterizou em quase 60 anos de música, com mais de uma dezena de álbuns, a maioria dos anos 1970. Os maiores sucessos foram “Pingos de amor” e “Quero voltar pra Bahia”, ambos gravadas também por muitos intérpretes da MPBdoB (a nova música do Brasil), na definição de Solano Ribeiro (Rádio Cultura/Fundação Padre Anchieta). A segunda é uma homenagem a Caetano Veloso e Gilberto Gil, quando estavam exilados em Londres: “I don't want to stay here/I want to go back to B...

Geada negra - Antônio Reis (*)

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Quando os serviços de meteorologia preveem frio mais rigoroso, meu emocional é de preocupação e saudosismo. Preocupação com os sem-teto e os sem-cobertor, além dos sem-sopa e dos sem-café quentes, impossibilitados de aquecer a barriga. Já o saudosismo fica por conta da geada de 1975, a mais impiedosa já enfrentada pelos moradores do centro-sul do País que continuam vivos.     Lembro-me de um domingo em que eu, mãe, pai e as três irmãs passamos o dia todo reunidos na cozinha ao redor do fogão a lenha. Chá e café para esquentar os corpos. Histórias do pai e mãe relembrando outras geadas que comparavam à daquele julho de 1975. As recordações dos velhos e as possibilidades para os dias seguintes fluíam com dois ou três gatos enrodilhados aos nossos pés. Aquele frio em demasia ficou conhecido como geada negra, pois queimou plantações de quase tudo. À época, pés de mamão eram “obrigatórios” nos quintais da periferia. O frio matou-os e a fruta desapareceu por bom tempo das mesas ...