15 de outubro, dia das malcasadas! - Antônio Reis

Quando comecei a estudar, em 1971, a charrete era o meio de transporte das professoras do Sesi 351, de Araçatuba. Todas elas, a maioria jovenzinhas, tinham o seu charreteiro particular que as levavam e buscavam no trabalho.

Na escola, havia apenas um professor, o “seo” Gaspar e, salvo engano, já possuía o seu “Fusquinha”. Sabe como é, né? Homem merece ganhar mais, pois mulher “fica grávida”. A diretora da escola, a dona Clarice Pereira do Amaral, essa sim, tinha carro. Não sei se as charretes eram a realidade das demais escolas do município, quero até crer que não.

Só sei que dois anos depois, os charreteiros perderam a clientela. Todas as professoras do Sesi 351 já tinham o seu automóvel, corria o ano de 1973, auge do milagre econômico e da ditadura militar. Só anos mais tarde fui entender a “ascensão” das profas.

Não tardou, veio a crise mundial do petróleo e a contenção de despesas levou as mestras a dividirem o carro com o marido, que as deixavam na escola antes de seguirem para o próprio trabalho. As jovenzinhas já estavam casadas.

Nos anos de 1977 e 78, o milagre econômico cobrava a fatura. O país vivia uma complicada situação, a caminho da hiperinflação que levaria metalúrgicos e jornalistas a desafiarem a ditadura militar com greves por melhores salários, democracia e liberdade sindical.

As destemidas professoras (e professores) não se intimidaram e também cruzaram os braços, afinal quem educa filho alheio, “moleque feito o capeta”, não teme a fuzil e nem cassetete de gorilas. Agosto de 1978 foi marcado pela primeira greve que se tem notícia do magistério paulista.

A partir de então, a categoria com predominância feminina aprendeu que sem luta não há vitória. Greve do professorado passou a fazer parte do calendário anual de lutas, da pauta dos jornais e jornalistas. Foi numa destas greves, que o então governador Paulo Maluf reagiu a uma manifestação: “Professora não é mal paga, é malcasada”.

Como se vê, os carrascos de hoje são outros, mas o chicote e os discursos continuam os mesmos. Não basta a sociedade achar que a educação é ferramenta de mudança social, mas continuar elegendo governantes que jogam a cavalaria contra educadores e descem-lhes cassetete no lombo. Se a tragédia continuar a se repetir nos anos vindouros, e com bons casamentos se desfazendo aos montes, fico temeroso de que voltem a ditadura e as charretes.





Antônio Reis é jornalista em Araçatuba e ativista do Grupo Experimental (GE) da Academia Araçatubense de Letras (AAL).

Comentários

  1. Digo que profissão mãetorrista não aguenta abastecer... bora os mulekes aprender a bater chão.
    Salve aos professores

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