Lei anticotas e o poeta negro proibido de ser promotor de Justiça - Antônio Reis (*)

 


Por enquanto o governo de Santa Catarina está sendo goleado no STF, que julga seis Ações Diretas de Inconstitucionalidade (Adins) de uma lei que proíbe cotas para negros em universidades públicas estaduais ou particulares que recebem recurso do governo daquele Estado. O placar está 3 a 0 para as Adins, golaços de Xandão, Gilmarzão e Flavião.

Para defender a cria, o patriota governo catarinense se apega a dados do IBGE, de 2022, que apontam o Estado como o segundo mais branco do País, atrás apenas do Rio Grande do Sul: 76,3% são descendentes de europeus. O governo admite que a Constituição Federal impõe o dever de reduzir desigualdades, mas, pasmem os que leem este texto, “há meios menos lesivos ao princípio da igualdade". Ou seja: em território de maioria branca, política de inclusão social é privilégio.

Sobre os “meios menos lesivos”, a filósofa Djamila Ribeiro, no brilhante “Pequeno Manual Antirracista”, pinça um pressuposto da elite dominante: “As pessoas negras vão roubar a minha vaga”. Djamila prossegue: “Por trás dessa frase, está o fato de que as pessoas brancas, por causa do privilégio histórico, viam as vagas em universidades públicas como suas por direito”. Mais certeira, impossível.

A despeito das lutas populares e personalidades progressistas, muito antes de se firmar como reduto da extrema direita, Santa Catarina já golpeava negros para assegurar o privilégio branco. E o maior poeta simbolista brasileiro, Cruz e Souza (1861/1898), foi marcado a ferro e fogo. Nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de alforriados, adotado por militar de alta patente, educado em escola de elite, formou-se em Direito e uma vez órfão, João da Cruz e Souza foi impedido de assumir o cargo de promotor de Justiça na cidade de Laguna (SC) por ser preto.

O poeta morreu aos 36 anos, tuberculoso, pobre, marcado pelo racismo e pela segregação, mas não deixou barato, conforme excerto do poema “Crianças negras”, um dos mais belos de sua lavra:

Para cantar a angústia das crianças!
Não das crianças de cor de oiro e rosa,
Mas dessas que o vergel das esperanças
Viram secar, na idade luminosa.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

As crianças negras, vermes da matéria,
Colhidas do suplício a estranha rede,
Arranca-as do presídio da miséria
E com teu sangue mata-lhes a sede!

Para aplainar injustiças, desigualdades e adversidades, tenho a solidariedade como princípio, e a pratico no limite das minhas possibilidades. Creio que sua paga é a reciprocidade, embora muitos prefiram a ingratidão. Quando Santa Catarina foi vítima de tornados, o País se solidarizou com doação de alimentos, roupas, medicamentos e até dinheiro. Numa oportunidade, colaborei com um galão de água potável e noutra, com um lote de leite UHT. Anos depois, Santa Catarina retribuiu com lei anticotas, Júlia Zanatta, Zé Trovão, Caroline de Toni, Jorge Seif, Esperidião Amin.



Antônio Reis
é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante.

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