1º de Maio, vida além do trabalho e fim da 6x1 - Antônio Reis


Apesar de ser pauta antiga do sindicalismo progressista, e já adotada em alguns países europeus, a redução da jornada de trabalho no Brasil parece estar próxima de se tornar realidade. Quanto à posição vanguardista da Europa, é importante destacar que nosso país foi um dos últimos do Ocidente a botar fim à escravidão de mulheres e homens pretos.

A boa notícia nos dias que antecedem o 1º de Maio, Dia Internacional do Trabalhador e da Trabalhadora, é a grande chance da aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que substitui a escala 6x1 (seis dias de trabalho por um de descanso) pela 5x2, que reduz a jornada de 44 horas semanais para 36, de forma gradual, sem a redução de salário.

Não acredito na redução para 36 horas semanais. Penso que ficará no meio: 40 horas. E já será um grande avanço, haja vista que muita “gente de bem e de bens” ainda nos quer no tronco, sob golpes de chicote e sal grosso pra estancar a sangria. Muitos “cristãos” encastelados no Congresso Nacional fazem escala 3x4, de boa, mas querem negar aos dessemelhantes um tempinho para cultuar suas crenças.

Foi há pouco mais de dois anos que tomei conhecimento da iniciativa do balconista de farmácia Rick Azevedo, então com 30 anos, do Rio de Janeiro. Estressado por falta de tempo para viver, ele postou nas redes sociais uma sugestão/desabafo que batizou de “Vida Além do Trabalho (VAT)”, que propunha o fim da escala 6x1, tendo como foco a qualidade de vida e a saúde do trabalhador. A proposta bombou, ganhou as páginas de revistas e de jornais de circulação nacional, conquistou adeptos Brasil afora. Rick perdeu o emprego, mas se elegeu vereador.

O VAT, que tomou o formato jurídico de PEC, é nada mais do que uma tendência imaginada lá por meados dos anos 1980, quando a automação chegava com força na indústria, quando os computadores começaram a tomar o lugar das calculadoras eletrônicas e das máquinas de escrever nos escritórios.

Estudos indicavam que no futuro, graças à automação, as pessoas trabalhariam menos e teriam mais tempo para se dedicar ao ócio, proporcionando o crescimento da “indústria do lazer”, que se tornaria uma potência indutora de crescimento econômico e de geração de riqueza. Inteligência Artificial nem se passava pela bola de cristal das videntes mais top de então.

O futuro chegou e com ele o VAT, que nada mais é do que trabalhar o suficiente para viver o máximo, com mais tempo para descansar, churrasquear, pescar, visitar os amigos, andar à toa pela cidade, jogar um futebolzinho, praticar atividade física, viajar, dormir mais, fazer crochê, tomar chá da tarde com as vizinhas, ir ao cinema e teatro, passear com o animalzinho de estimação, cuidar do jardim, tomar um chopinho ouvindo boa música, ler um livro, escrever poesia. O VAT é isso. E para isso, é necessário o fim da 6x1.

Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante

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