Carnaval, águas de março e rachadinhas - Antônio Reis (*)


Nunca gostei do clichê "no Brasil, o ano começa depois do Carnaval". Tenho a impressão de que o autor passava por crise de originalidade e, mesmo sem redes sociais, pois a dita-cuja é antiga, a pérola passou de boca em boca através dos tempos sem perder o seu propósito. Imagino o "pensador" deste clássico em 2026: defensor da escala 6x1; pregoeiro do empreendedorismo, do "trabalho tem, não trabalha quem não quer”, "o País não vai pra frente porque tem muitos feriados".

Sou seletivo em citações nos meus escritos e no meu cotidiano, pois suspeito de que muita coisa é sofisma que contempla tão somente coachs e a galera da autoajuda. Considero Carnaval uma pausa como a Semana Santa, o Natal, Ano Novo e todos os feriadões. Já trabalhei no Réveillon, Natal, Carnaval, Semana Santa, 1º de Maio, datas especiais (Dia das Mães, dos Pais) e todos os feriados que o mais arrojado dos empreendedores e coachs possam imaginar. Eis que para mim, o ano começa em 1º de janeiro e termina em 31 de dezembro. Mesmo com player constantemente ligado, não destilo frustrações (porque não as tenho) de empreendedor fracassado, influencer preconceituoso ou atentados contra a CLT.

De minha parte, que nunca pulei Carnaval, fico aliviado com o fim da folia, o que não significa odiá-la. Fico, sim, ansioso pela chegada das águas de março. Desejo que as chuvas que abrem o outono tirem o suor dos foliões, disfarcem as lágrimas dos perdedores e saúdem os vencedores; que venham descolar confetes e glíter grudados nos corpos, além de botar água na fervura do verão.

As águas de março trazem consigo as cinzas que, segundo a Bíblia, abrem a quaresma e simbolizam o arrependimento, a purificação da alma e um lembrete: "Do pó viestes, ao pó voltarás". Torço para que as águas de março venham purificar a alma de fariseus que se dizem cristãos, mas colocam coroa de espinhos na cabeça de quem os contraria, negam pão a quem tem fome e mandam surrar quem tem sede de justiça; que abusam da ignorância popular para agir como saqueadores do templo (fé alheia). E mais: dos falsos religiosos que vendem seus irmãos por 20 moedas.

Dito isso, o sofisma e analogias vão ao encontro da classe política, em especial daqueles que passam décadas no Congresso Nacional cantando o samba-enredo "ei, você aí/me dá o dinheiro aí/me dá o dinheiro aí". O "você aí" pode ser o cidadão pagador de impostos ou os comparsas nas rachadinhas, nas lojas de chocolates, nas emendas PIX, nos R$ 400 mil guardados em casa. Para esta turma, março é o início do ano eleitoral. Haja águas de março para lavar a sujeira de gente que conhecemos de outros carnavais.




(*) Antônio Reis é jornalista, 
assessor de imprensa
 e fotógrafo diletante.

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