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Mostrando postagens de 2026

31 de março, dia da fake news - Antônio Reis (*)

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O dia da mentira deveria ser antecipado para 31 de março e ter novo nome: dia da fake news. Explicando: minha geração foi adestrada nas escolas com partido de que neste dia, no ano de 1964, militares enviados por Deus, em nome da família e em defesa da pátria, botaram os comunistas e os corruptos para correr. E mais: botando os comunas pra correr, os milicos preservaram a democracia. Em meus primeiros anos escolares, idos de 1970, os alunos eram levados ao pátio recreativo para cantar o Hino Nacional todas as sextas-feiras após as aulas. Também havia a declamação de quadrinhas rimadas exaltando “valores patrióticos” e heróis nacionais. Fico pensando se os professores acreditavam naquelas tolices ou tinham medo de que lhes cortassem a língua. Em 1974, nos dez anos da “revolução que salvou o Brasil”, foi uma semana de cantoria. Hino Nacional, da Independência, da Bandeira, da Proclamação da República. E se não bastasse, tinha também a ufanista “Eu te amo meu Brasil”, que o rádio e televi...

Inacreditável, se não fosse verdadeiro! - Antônio Reis (*)

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Não gostaria, juro que não gostaria, de começar um texto assim: “Quando pensei que já tinha visto tudo...”. É clichezão de rede social, mas, depois de muito matutar, não teve jeito. O que ainda não tinha visto? Comprar ovo de Páscoa à prestação. O preço do cacau disparou no mercado internacional, obrigando os coelhos a botarem ovos a preços de ouro. A família consome o produto num dia e passa três meses, ou mais, pagando a fatura do cartão de crédito. Realmente, a grande sacada do capitalismo é convencer as pessoas a comprarem o que não necessitam pra pagar com o que não têm. Aí aparecem as soluções milagrosas: bancos, financeiras, cartão de crédito, PIX. O consumidor compra um ovo e paga três ou mais. Pior que beber fiado em boteco de chafarica, mas se instituição financeira pode, por que o galego dono da baiuca não? Admito financiamento longo para pagar o que é imprescindível para o bem-estar das pessoas, como casa própria, curso universitário, carro quando necessário para o trabalho...

Molho nordestino para o mundo - Antônio Reis (*)

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Em meados de janeiro escrevi uma crônica otimista quanto ao sucesso de "O Agente Secreto" na premiação do Oscar 2026. Na noite de domingo (15/03), com Malbec na taça, expectativa a mil, vi o filme nacional ser superado por outros tão bons quanto. Torci muito, mas não me sinto frustrado pelo insucesso de "O Agente Secreto". O prazer de estar conectado a uma enorme corrente de torcedores, em clima comparado a uma final de Copa do Mundo, valeu a pena. No texto de janeiro, fiz constar meu apego ao cinema, que por muito tempo foi o entretenimento de minha preferência. Apesar disso, os filmes de que gostava não eram indicados ao Oscar. Meu gosto não coincide com a lógica mercadológica de Hollywood e da Academia. Comecei a prestar atenção a essa premiação quando os brasileiros passaram a constar da lista de indicados: "Quatrilho", "Cidade de Deus", "O que é isso companheiro", "Central do Brasil". Também torci muito por eles. Até  que...

De supercraque a bajulador de condenado por abuso sexual - Antônio Reis (*)

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A imagem de Lionel Messi se refestelando com Donald Trump em comemoração do título do Inter Miami, no qual joga o argentino, é de causar engulhos. Messi presenteou o Capiroto com mimos alusivos ao campeão da Major League Soccer, o inexpressivo campeonato estadunidense de futebol. A solenidade se deu na toca do Tinhoso (Casa Branca). Pessoas talentosas e com capacidade de formar opinião, como é Messi, deveriam ser mais responsáveis e seletivas. A imagem dividiu os próprios argentinos. Alguém avisou Messi, ídolo de muitas crianças, que o Capiroto foi condenado por abuso sexual e sobre ele paira consistente acusação de pedofilia? Que é sequestrador de autoridades, é exterminador de povos e nações e tudo faz, junto com seu comparsa que governa Israel, para provocar a terceira guerra mundial? Ou Messi acredita nos "bons propósitos" de quem pretende varrer os palestinos do mapa para transformar a Faixa de Gaza em balneário de luxo? O supercraque argentino é tolo, é mal informado, q...

Mansidão de Lula e brabeza de Ciro - Antônio Reis

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Semana passada, Lula contestou Tiago Eltz, repórter da Globo, que tentou distorcer uma fala dele numa entrevista coletiva em Nova Delhi (Índia). "O senhor disse que no encontro com o presidente Trump que o Brasil pode receber criminosos". O "nine”, com tranquilidade e educação, contestou: "Você não ouviu isso aqui". Na explicação ao repórter, Lula disse que falara a Trump que o Brasil quer punir com cadeia pessoas que cometeram crimes aqui e fugiram pra Disney. "Se eu aceito que você faça a pergunta do jeito que está fazendo, dá a impressão de que eu falei isso. Mas eu não falei isso", continuou o “nine”. O jornalista perdeu o rebolado, tentou corrigir, pagou mico e virou meme nas redes. O ocorrido me fez retroagir a 1998, quando Ciro Gomes foi candidato a presidente pela primeira vez. Eu era repórter da Folha da Região (Araçatuba-SP), então potência no Interior Paulista. Fui entrevistá-lo em Penápolis. Fui animado, mas com pé atrás, já que o presiden...

Carnaval, águas de março e rachadinhas - Antônio Reis (*)

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Nunca gostei do clichê "no Brasil, o ano começa depois do Carnaval". Tenho a impressão de que o autor passava por crise de originalidade e, mesmo sem redes sociais, pois a dita-cuja é antiga, a pérola passou de boca em boca através dos tempos sem perder o seu propósito. Imagino o "pensador" deste clássico em 2026: defensor da escala 6x1; pregoeiro do empreendedorismo, do "trabalho tem, não trabalha quem não quer”, "o País não vai pra frente porque tem muitos feriados". Sou seletivo em citações nos meus escritos e no meu cotidiano, pois suspeito de que muita coisa é sofisma que contempla tão somente coachs e a galera da autoajuda. Considero Carnaval uma pausa como a Semana Santa, o Natal, Ano Novo e todos os feriadões. Já trabalhei no Réveillon, Natal, Carnaval, Semana Santa, 1º de Maio, datas especiais (Dia das Mães, dos Pais) e todos os feriados que o mais arrojado dos empreendedores e coachs possam imaginar. Eis que para mim, o ano começa em 1º de j...

Vidas humanas também importam - Antônio Reis

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No último dia de janeiro assisti em teatro, pela terceira vez, “O auto da Compadecida”, a mais conhecida obra do mestre Suassuna. A trama, numa cidade qualquer do interior do Nordeste, começa com a trapaça dos amigos João Grilo e Chicó para que o padre encomende a alma de um cachorro morto. A dona do animal é a mulher de um comerciante influente, que colabora com a igreja nas obras sociais e com pequenos “privilégios” ao padre. O religioso se dobra à absurda proposta mediante a promessa de generosa ajuda financeira. A trama é uma afronta jocosa aos preceitos da Igreja. Saí do teatro recordando do que me ocorrera naquela manhã, quando pedalava próximo ao Centro de Araçatuba. Quase fui atropelado por um carro que me “fechou” e seguiu seu destino. Mesmo o veículo em velocidade incompatível para o local, pude ver no vidro traseiro um enorme adesivo, com a estampa de um cachorro e a frase: “Eu freio para animais”. Minha formação humanista, avessa a igreja e religião, obriga-me a respeitar t...

História flauteada e fotografada - Antônio Reis

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  Luiz Carlos Gomes Rocha da Silva não pôde comemorar o aniversário de 63 anos, completados no hospital três dias depois de um enfarto. Os amigos formaram um grupo de WhatsApp para dar suporte à internação, já que ele não tinha parentes próximos em Araçatuba (os três irmãos moram nos Estados Unidos). Durante 75 dias, o grupo fez o que pôde para sua recuperação, mas não foi possível driblar o inevitável. Complicações decorrentes do enfarto o levaram na manhã de 29 de janeiro e o corpo foi sepultado no dia seguinte. Conheci o Luiz em 1975, quando fui estudar no Genésio de Assis. Nesse mesmo tempo, nos víamos no campinho do XV, esquina da Humberto Bergamaschi com a Imaculado Coração de Maria, onde as peladas corriam soltas, embora ele nunca tenha sido boleiro. Ele morava na Yampei Kikuchi e eu, na Humberto. Também nos encontrávamos nas sessões do Cine Paraíso. Dois anos depois, tornei-me jornaleiro e ele, meu freguês. Colecionava a revista "POP", que abordava assuntos de inter...

Obrigado, Orelhão - Antônio Reis

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Semana passada foi noticiado que a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) autorizou as concessionárias do serviço de telefonia a retirarem das ruas os telefones públicos, o popular e carinhosamente apelidado orelhão. Ninguém mais usa telefones de rua, outrora xodó dos brasileiros de baixa renda, da periferia, das mocinhas que namoravam a distância, dos pedidos de socorro à polícia e à ambulância. E claro, da molecada endiabrada que se divertia passando trote. Os ingratos trocaram a invenção brasileira pelos modernos smartphones. O orelhão fez parte do cotidiano dos brasileiros. Os primeiros, da cor laranja, foram instalados em 1972 nas capitais e faziam apenas chamadas locais. Depois vieram os azuis para interurbanos. Anos depois, os orelhinhas para crianças e cadeirantes. No início dos anos 1980, os comunitários, que recebiam chamadas. Em 1992, as fichas foram substituídas por cartões. Repórter de jornal naquela época sofria para atender a população que reivindicava orelhão no ...

O agente predileto - Antônio Reis

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Sempre gostei muito de cinema, creio, como a maioria das pessoas que já passaram dos 50. No meu caso, teve um agravante. Quando moleque morava perto de um cinema e para ir ao colégio, passava em frente dele: o Cine Paraíso, em Araçatuba. Cinema de rua e de periferia, sim senhor. E com orgulho. Em dia de Mazzaropi, às 3 da tarde, sob sol escaldante, mesmo não sendo fim de semana, a fila para comprar ingresso dobrava quarteirões. Assisti de quase tudo, de românticos aos de ação; de comédia, a drama; de aventura, a guerra; de documentário, a musicais (meus preferidos), policial e faroeste. Nunca fui fã de terror, ficção científica e chanchada. A minha preferência talvez tenha me afastado dos hollywoodianos e dos comumente indicados ou agraciados com o Oscar. Meu gosto não consta da lógica mercadológica de Hollywood e da Academia. Azar meu, claro. Embora assistindo a quase todos os gêneros, quando tomei ciência do porquê o Brasil é Brasil, descobri o cinema nacional e nele produto de quali...

Fotografia e democracia - Antônio Reis

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Entre as datas comemorativas do mês, o 8 de janeiro é Dia Nacional da Fotografia e o Dia do Fotógrafo. Teria sido neste dia, no ano de 1840, a chegada da primeira câmera fotográfica ao Brasil. Bem sei que um texto perde impacto quando se refere com atraso a uma data comemorativa, mas fotografia é lembrança, recordação, documentação. Com celulares baratos que tiram fotos tão boas quanto as câmeras fotográficas mais caras, nosso cotidiano foi inundado por imagens. Algumas fontes estimam em 100 milhões de imagens publicadas diariamente no Instagram. Nem todas as postagens são fotos e, logicamente, nem todos que as produzem são fotógrafos. Eis, então, para fins croniqueiros, a importância de se definir o que é fotógrafo. Defino como fotógrafo quem domina as teorias básicas da arte e sabe aplicá-las na prática. Esses conhecimentos possibilitam que a pessoa retrate a realidade ou a apresente conforme sua vivência e visão de mundo. Pode-se usar um celular ou uma câmera. O fotógrafo é também a...

Cheiro de manga - Antônio Reis

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Da comilança do Natal e Ano Novo, pouca coisa me apetece. Passaria de um ano ao outro sem panetone, chocotone, peru, chester, bacalhau, salpicão, rabanada, frutas cristalizadas. Com o passar dos anos aprendi a ser minimalista, inclusive na alimentação. No verão, me atraem muito as frutas tropicais, uma em especial, por me remeter a um tempo em que a vida tinha o frescor de orvalho. Fim de ano para mim tem sabor de manga. Não as importadas dos Estados Unidos, como a palmer, haden e a tommy atkins, cujo nome me lembra personagem de Dostoievski ou fuzil ucraniano. Falo da bourbon, espada, coquinho, coração de boi. Ah, e a manga rosa (a fruta, não aquela de fumar). Estas têm sabor de saudade. Da bourbon, verde por fora e madura por dentro, come-se até a casca. As fiapentas nacionais, geralmente amadurecem no final do ano, dependendo da variedade, até março. As importadas são encontradas quase o ano inteiro. E por ter menos fiapo, são consumidas como sobremesa e bastantes usadas para doces,...