O sensei e a cerveja que não tomamos - Antônio Reis

Como editor de Esportes, pautei um jovem repórter, ainda estudante de Jornalismo, para uma matéria com o sensei Koji Kiwada, que acabara de se aposentar. Era matéria especial produzida no decorrer da semana para ser publicada no domingo, dia em que os jornais investem em assuntos amenos. E ninguém melhor do que Kodão, que dedicou a vida ao judô, para entreter os leitores da domingueira.

Lá pelo meio da tarde, chega o foquinha com um entusiasmo que não cabia em si. Fora cativado pelo eterno medalhista de ouro, que formou uma geração de judocas, alguns de projeção nacional, iguais ao mestre. As belas fotos de outro profissional iniciante retratavam o japonês gordinho, semblante sereno, vestido a caráter (todo de branco), sentado no tatame em posição de Buda, frente a frente com o foca.

Confesso que artes marciais não me atraem, mas tenho apreço pelo judô. Tenho a impressão de que seus praticantes, sejam moças ou rapazes, são pessoas práticas, que encaram o seu esporte como filosofia de vida, que se destacam nos estudos e no trabalho, são dotados de camaradagem e educados. Nem todos, claro, mas me pauto sempre pela regra e nunca pelas exceções.

O trabalho do editor de jornal impresso, para quem não sabe, é dar o formato final ao texto do repórter, eliminando os excessos, observando a coerência das informações, checando dados que porventura o autor se esqueceu e coisas do tipo. E claro, o texto do foca exigiu estes e outros ajustes, apesar do belo conteúdo (mérito do entrevistado). Geralmente, cobra-se do repórter o esclarecimento de dúvidas. No meu caso, o moleque era marrento feito a gota. Achava que sabia tudo e a “facu” era o “best”.

Simples, telefonei para o entrevistado sem nunca ter falado com ele, no horário mais inconveniente (do almoço), para tirar algumas dúvidas. E a impressão que tenho dos judocas se confirmou. Do outro lado da linha atendeu um homem de voz suave, de uma educação e de uma simpatia raras. Tirou todas as minhas dúvidas e se despediu com um convite: “Apareça, Antônio. Pra a gente se conhecer, tomar uma cerveja”.

E a vida seguiu feito um catavento louco. Por muitas vezes imaginei sentado diante do sensei batendo meu copo na borda do copo dele e lhe desejando saúde para sempre. Todavia, as circunstâncias do cotidiano  me negaram essa oportunidade. Até que numa terça-feira de muita luz, 13 anos depois da matéria do domingo, sou tomado pela tristeza ao saber que o sensei perdeu a última luta que travou na vida. E a nossa cerveja ficou apenas na vontade.

Antônio Reis é jornalista em Araçatuba,
atualmente se dedica a assessoria de 
comunicação, é fotógrafo diletante
e ativista do Grupo Experimental.

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