Prazer da releitura - Antônio Reis

É prazeroso revisitar as leituras dos tempos de juventude e de sonhos. A releitura atesta o amadurecimento do leitor e o enriquecimento do estofo intelectual. No momento, releio “Bebel que a cidade comeu”, o primeiro romance de Ignácio de Loyola Brandão.

Por coincidência, há alguns dias a novela “Terra e Paixão”, que não perco um capítulo por nada deste mundo, faz baita marketing de “Feliz Ano Velho”, o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva, em que relata o acidente que o deixou tetraplégico. Na ficção de Walcyr Carrasco a personagem Graça, interpretada por Agatha Moreira, presenteia o namorado Jonatas (Paulo Lessa) com o livro na tentativa de reanimá-lo, pois está em uma cadeira de rodas, vitimado por um tiro que o atingiu na coluna vertebral, numa trama arquitetada pelo miliciano Antônio La Selva (Toni Ramos), um gigante do agronegócio, dono de um império grilado no interior do Mato Grosso do Sul.

Na verdade, Graça leva vários livros para reanimar Jonatas, mas apenas “Feliz Ano Velho” é possível de ser identificado pelos noveleiros mais atentos. O rapaz revoltado com a situação, de início, recusa os livros. Aline (Bárbara Reis), pivô da confusão que resultou no tiro que atingiu Jonatas, manuseia a obra de Marcelo Rubens Paiva de modo a mostrá-la rapidamente pela segunda vez aos expectadores. Ela incentiva o cadeirante a ler, explicando que se trata de um romance (?), que conta a história de um rapaz que sofreu um acidente e ficou tetraplégico.

Jonatas cede e começa a ler o livro, que tem a capa comercialmente exposta pela maior rede de televisão brasileira por alguns segundos, o suficiente para qualquer expectador ler o título sem dificuldade e apreciar o forte colorido da obra, uma republicação da Editora Alfaguara em comemoração aos 40 anos do best seller.

À época, o regime dos gorilas agonizava e o País era inundado por publicações, discos, shows, peças de teatro e filmes que por muitos anos estavam sufocados pela censura. Os ventos eram promissores e “Feliz Ano Velho” leitura obrigatória não apenas para os jovens vestibulandos, mas por todos que se interessavam por livros.

A saudade me obriga a revisitar esse quarentão. E não apenas ele, mas também Guimarães Rosa, Kafka, Maiakovski; alguma coisa de história, de sociologia e, quem sabe, Hermann Hesse. Não costumo pedir a Deus, pois desconfio de que não seria atendido, mas espero viver o suficiente para reler muita coisa, e também para ver no xilindró milicianos iguais ou piores que Antônio La Selva.

















Antônio Reis é jornalista em Araçatuba.

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