Um ensaio fotográfico - Antônio Reis


Pedalar de manhãzinha, principalmente aos domingos, tem sido minha atividade física preferida. Seguir sem roteiro, de preferência pelos ermos da cidade, sempre reserva surpresas. E para surpreender as surpresas, especialmente as boas, nada melhor que uma câmera fotográfica, embora muitos, na falta dela ou por opção, usem o celular.

Na manhã do primeiro domingo de agosto revi a avenida José Ferreira Baptista, passei por uma plantação de sorgo, pedalei até o trevo conhecido como pé-de-galinha, que dá acesso ao aeroporto, e decidi experimentar uma rua pela qual nunca havia passado de bicicleta.

No cruzamento da Aguinaldo Fernando dos Santos com o córrego Machado de Melo, a mais agradável surpresa do dia. Numa tubulação sobre o riacho e acima do nível da ponte, um urubu tomava sol. Pressenti boas fotos. O cenário não era desprezível: ave exótica, água, céu e mato, embora ressequido pela estiagem do agosto.

Desci da bicicleta, desembolsei a câmera e à meia distância fiz as primeiras imagens, aparentemente consentidas pela ave. Aproximei-me com cuidado e disparei novos cliques, enquanto ela desfilava sobre a tubulação, ora para direita, ora para a esquerda. Às vezes parava, sugerindo novas poses.

Com várias imagens garantidas, imaginei que um close bem de perto, com profundidade de campo (foto com o fundo borrado), ficaria interessante. Fui pé ante pé com a Nikon modelo Coolpix P510, que não permite a troca de lente, embora possibilite distância focal de ótima qualidade. Aproximei-me o máximo que pude e a ave lá, tranquila, como se tivéssemos combinado o ensaio fotográfico.

Pertinho daquela figura (desconfio até que fosse uma “urubua” pela elegância e paciência), dei um zoom na modelo e fiz um perfil do rosto, com profundidade de campo perfeita e regra dos terços conforme os manuais. Vaidosa, ela se virou para que o perfil oposto também fosse fotografado. Depois esticou uma das pernas, como se espreguiçando, e exibiu a asa em forma de leque. Um clique frontal, de rosto, lembra muito a luz de Rembrandt.




Já fiz cursos de direção de pessoas (posicionamentos de modelos), mas de urubu nunca. E pela experiência inusitada, acho que não me saí mal. A sessão de fotos durou uns dez minutos, ao fim dos quais a ave, calmamente, se arrepiou toda, contorceu o pescoço, sacudiu corpo e cabeça, me encarou firmemente, como que dizendo: “Gostei, mas por hoje chega”. Bateu asas e voou, voou, voou, tornando-se uma manchinha escura no céu.




Antônio Reis é jornalista em Araçatuba e atualmente se dedica a assessoria de imprensa. Voluntário do Grupo Experimental, editor do Blog Experimentânea e fotógrafo diletante.

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