Malhação do judas - Antônio Reis
Sei lá quem inventou essa história de malhar o judas na véspera da Páscoa, mas a ideia me agrada. Talvez um cara revoltado com o juiz que condenou Jesus num julgamento imparcial e sem provas, o que hoje se chama lawfare, e decidiu castiga-lo pelo malfeito.
Seja lá qual for a origem, a tradição exige do judas alguns requisitos. O bom judas é aquele que personifica antipatia, fanfarronice, soberba, arrogância, prepotência, imoralidade, desprezo pela vida alheia, trapaça ou bandidagem de toda ordem. Não todos, mas alguns reúnem todas as qualificadoras.
Por vários dias analisei uma lista de candidatos a judas. De imediato, pensei no técnico português que mentiu ao Corinthians para trabalhar no Flamengo. Ou quem sabe aquele jogador que “se acha”, mas na hora do pega pra capar pediu para ser o último a bater o pênalti, confirmando a fama pipoqueiro?
Mas não, tem gente mais qualificada, também no mundo do futebol. Um é acusado de estupro e está preso na Espanha esperando julgamento e outro já condenado pelo mesmo crime na Itália. São bons nomes para serem malhados e, por coincidência, são fãs de um tal mito, que merece um parágrafo à parte.
Os milicianos digitais que fabricam fake news para vitaminar as milícias reais? E a turma que usou dinheiro público para comprar enormes quantidades de picanha, leite condensado, Viagra e próteses penianas para generais brochas? Merece ou não chibatadas em praça pública?
Que tal descer o sarrafo nos pastores evangélicos que exploram e manipulam o rebanho, fazendo da igreja um balcão de negócios e do púlpito um palanque eleitoral? Ou nos padres pedófilos? Ou ainda na deputada que puxou revólver para um homem negro no centro de São Paulo? Tem também o ex-deputado que atirou contra policiais federais. Ou no ex-comandante da Polícia Rodoviária Federal que tentou impedir os nordestinos de irem às urnas?
Os safardanas do 8 de janeiro, não. Os que não estão com tornozeleiras nas canelas, vão comer chocolate no xilindró, já basta. Assassinos de professores e crianças nas escolas também não, pois já estão malhados pelo senso comum e eu prefiro judas mais requintados, tanto que ignoro os de Araçatuba.
Ah, o mito. Aquele que ameaçou as instituições, atentou contra a democracia, fez apologia do estupro, da misoginia e do racismo; que se recusou a comprar vacina, desdenhou de pessoas morrendo com falta de ar, agiu para propagar uma pandemia, fez arminha com crianças no colo, prometeu matar 30 mil petralhas e tentou burlar a lei no caso das joias. Agora, sem foro privilegiado, merece uma malhação caprichada como acerto de contas.
A lista é grande e para malhar a todos, precisaria começar a fabricação dos judas com um ano de antecedência. Na impossibilidade de isso vir a acontecer e para não cometer nenhuma injustiça, sintam-se todos caprichosamente malhados.

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