Foi bonita a festa, pá ! - Antônio Reis
No discurso da cerimônia de premiação, o laureado, fazendo jus ao “Camões” pela habilidade com a língua, deu nome aos bois sem citar nomes, colocou-os nos devidos lugares. Fez uso de refinada ironia ao se referir à recente página infeliz de nossa história. Solidário, dedicou o prêmio aos artistas brasileiros, humilhados e ofendidos pela estupidez e obscurantismo que tomaram conta do País nos últimos anos.
Chico também fez referência ao 25 de abril, quando Portugal comemora o Dia da Liberdade, pois nessa data, no ano de 1974, jovens oficiais do Exército marcharam por Lisboa com cravos na boca dos fuzis para pôr abaixo uma ditadura que já durava 41 anos. A romântica Revolução dos Cravos é descrita no belo filme “Capitães de Abril”, de Maria de Medeiros, e cantada por Chico em ao menos duas músicas: “Tanto mar” e “Fado tropical”.
A queda da ditadura levou à independência as colônias portuguesas na África. Havia anos que os nativos travavam sangrenta guerra com a metrópole em busca da autodeterminação. A oposição à guerra colonial foi um dos motivos que levaram os jovens oficiais, liderados pelo idealista Salgueiro Maia, a se organizarem para derrubar o regime ditatorial.
Exatamente dez anos depois, no 25 de abril de 1984, contrariando a vontade popular, o Congresso Nacional brasileiro rejeitava a proposta de Diretas Já. Ao contrário de Portugal dez anos antes, a maioria dos parlamentares brasileiros preferiu dar fôlego à ditadura. Importante destacar a presença de Chico nos palanques em favor das eleições diretas para a Presidência da República.
Hoje, Brasil e Portugal são governados pela centro-esquerda e ameaçados pelo ódio que tenta destruir tudo o que não atende ao apito de cachorro soado pela extrema direita em nível mundial. Esses, não reconhecem Camões, música, poesia, cinema, humanismo, solidariedade, liberdade, democracia. Que nos próximos 25 de abril, brasileiros e portugueses possam olhar para trás e cantar: “Foi bonita a festa, pá”.

Bonito texto! Duas retificações que gostaria de apontar: foram 48 os anos da ditadura em Portugal e em África só havia mais uma colónia - São Tomé e Príncipe.
ResponderExcluirOs cravos foram iniciativa de uma florista em Lisboa que os ofereceu aos militares que viriam a colocá-los simbolicamente na abertura das armas. Obrigada!