Refugiado por perturbação ambiental - Antônio Reis

O 22 de março é o Dia Mundial da Água, quando empresas, poder público, escolas e ONGs promovem eventos alusivos à data, com medidas de preservação ambiental durante toda a semana. Em Araçatuba, teve palestras e um mutirão para limpar as margens do ribeirão Baguaçu e do córrego Machadinho.

Entre os mutirantes, o Foto Clube Araçatuba. Não fossem meus compromissos diários, participaria das atividades, pois gosto de dar uns cliques. E o Parque Ecológico do Baguaçu (Peba) rende boas fotos, tem até cachoeirinha a 100 metros do asfalto. E na última vez em que lá estive, fiquei preocupado com a quantidade de lixo urbano próximo à queda d’água e na própria corredeira.  

Fiquei contente com o mutirão de limpeza, pois faço caminhada na Pompeu de Toledo, altura do Peba, lugar tranquilo, de pouco trânsito, principalmente nos fins de semana cedinho. Entretanto, da pista de caminhada dá pra ver todo o tipo de material descartado nas margens do Baguaçu: latas e garrafas de bebidas, sacos com lixo doméstico, pedaços de sofá, máscaras de proteção facial, materiais plásticos, restos de pneu, entulho de construção. 

Dia desses à tardinha, fui surpreendido com um cágado rastejando vagarosamente no concreto do passeio público rumo ao asfalto da avenida. Estaria fugindo da poluição que tomou conta de seu habitat, o chamado refugiado por perturbação ambiental? Estaria disposto a se arriscar em direção ao asfalto, como os imigrantes que se lançam ao mar ou ao deserto, em busca de ambiente sadio e vida digna?

Ciente do risco que o bicho corria se alcançasse o asfalto, tornando-se invisível à noite naquela via escura, devolvi-o à mata ciliar do Baguaçu, a uns dez metros do calçamento de concreto, numa ribanceira rumo ao córrego. Lá é o lugar dele, um réptil, junto a terra e à água, com farta alimentação, dada a quantidade de insetos e vegetais ali existentes.

Três ou quatro dias depois, voltei à caminhada e encontrei um cágado esborrachado no asfalto da Pompeu, atropelado que fora por um carro. Senti pena daquele indivíduo rústico, cascudo, preto, que leva nas costas todo o bem que possui, que rasteja humilde e vagarosamente rumo ao desconhecido. A obstinação silenciosa e ousada fez com que tivesse o mesmo fim de muitos retirantes e refugiados que se aventuram por dias melhores.

Antônio Reis é jornalista,
 ativista do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de
Letras (AAL) e
 editor do
blog Experimentânea.
Instagram: @antonio_s_reis

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