Joias, Arábias e tempo perdido - Antônio Reis

Juro que não queria abordar o famoso, e precioso, presente da Arábia Saudita formado por um conjunto de joias avaliado em R$ 16,5 milhões. O generoso príncipe saudita Mohammed bin Salman costuma dar a chefes de Estado e a altas personalidades mimos que custam alguns milhares de euros, mas ao que tudo indica dessa vez exagerou.

As joias que vieram parar no Brasil totalizam cinco vezes mais que o par de brincos que bin Salman deu à duquesa Meghan Markle, avaliado em R$ 3,2 milhões. E olhe que Meghan é casada com o príncipe Harry, que, embora não seja o primeiro da linha sucessória, é nascido no palácio de Buckingham, bem distante de territórios milicianos. Um casal diferenciado, diga-se de passagem.

Talvez o critério de Salman na escolha dos presentes seja afinidade ideológica. Quem despreza mulheres e LGBTQIA+, persegue jornalistas, idolatra violência, faz apologia à tortura, é contra democracia, merece presentes mais valiosos. Critério é critério, fazer-se o quê? Mas que tem cheiro de suborno ou propina, isso tem.

O presente me faz lembrar um conto árabe:
“Um viajante ao atravessar o deserto encontrou um árabe, aparentando muita preocupação. O viajante não se conteve:
- Posso ajudá-lo em alguma coisa?
Ao que o árabe respondeu:
- Estou muito aflito. Acabo de perder a mais preciosa de todas as joias. Era uma joia como jamais haverá outra. Estava talhada num pedaço de pedra da vida e tinha sido feita na oficina do tempo. Era adornada com vinte e quatro brilhantes, em volta dos quais havia sessenta menores. Uma joia que não tenho como recuperar.
Diante de tamanha aflição, o viajante insistiu:
- Sendo assim, a joia perdida é mesmo muito valiosa. Mas com muito dinheiro, que o amigo aparenta ter, não será possível comprar ou encomendar que seja feita outra igual?
O desafortunado revelou, então, sua perda e o motivo da lamentação.
- A joia perdida era um dia, e um dia que se perde jamais será refeito ou recuperado”. 

As joias, o conto, a nossa história recente, as atuais circunstâncias, me obrigam a uma reflexão: “Se um dia perdido é uma joia preciosa insubstituível, imagine o imenso tesouro que o País perdeu nos últimos quatro anos”.


Antônio Reis é jornalista,
ativista do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras
(AAL) e
 editor do blog Experimentânea.
Instagram: @antonio_s_reis

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