Escola com partido - Antônio Reis
Por muitos anos o 31 de março foi comemorado nas escolas, mas caiu na vala das bobagens nacionais com a redemocratização, a Constituição de 88, as Diretas Já e eleições livres. As comemorações, no entanto, emergiram do lodo no governo passado nos círculos militares, nos grupos de alienados ou de mal intencionados.
Lembro-me dos meus primeiros anos escolares, na década 1970, os anos de chumbo, quando éramos obrigados a cantar o Hino Nacional todas as sextas-feiras após as aulas. Havia declamação de quadrinhas rimadas exaltando “valores patrióticos” e heróis nacionais, que mais tarde vimos não serem tão heróis assim.
Quando completou dez anos, em 1974, o 31 de março foi comemorado com uma semana de cantoria. À época, a enfadonha “Eu te amo meu Brasil”, dos medíocres Dom e Ravel, impulsionada pelos milicos, fazia sucesso com “Os Incríveis”, um grupo só de musiquinhas chatas, estilo iê-iê-iê. E tínhamos de cantá-la também antes ou depois dos Hinos Nacional, da Independência, da Proclamação da República, da Bandeira. Era hino, cantávamos. Menos o do Corinthians, claro.
O patriotismo era matéria mais importante do que Matemática, Português, Geografia ou História, principalmente esta. Ainda me lembro de uma professora de Educação Moral de Cívica (credo-em-cruz) que deu como tarefa de casa as realizações da “revolução de 31 de março”, como a Transamazônica, ponte Rio-Niterói, Itaipu binacional, usinas nucleares de Angra dos Reis. Coisas do milagre econômico, do tricampeão mundial no futebol, o país tropical abençoado por Deus, bonito por natureza e acima de todos os demais. Hoje, não sei se a professora fazia por convicção ou por medo que lhe cortassem a língua.
A “revolução de 31 de março de 1964” é contestada não apenas por princípios, quando chamada de golpe, mas também na sua origem. O reboliço político que derrubou o governo legítimo do presidente João Goulart, segundo historiadores sérios, se deu na madrugada de 1º de abril, o dia da mentira. Para que a quartelada não entrasse para a história como chacota, relógios foram atrasados e fatos forjados como se ocorridos no dia anterior.
Toda uma geração, a minha, não foi educada, foi adestrada. No entanto, o dito popular adverte: “Não há mentira que dure para sempre”. Escola com partido nunca mais.

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