A verdade está no vinho - Antônio Reis

 E as notícias ruins envolvendo o mundo do trabalho continuam a pulular Brasil afora. A mais recente, e estarrecedora, é o trabalho análogo à escravidão envolvendo vinícolas do Rio Grande do Sul, Estado de maioria branca. Entre as 207 vítimas, a maioria são trabalhadores recrutados na Bahia, onde predomina a população negra. Há suspeitas de que até policiais cometeram atos de violência física contra eles. 

O trabalho análogo à escravidão é inadmissível e quando se toma conhecimento dele, a imaginação é direcionada a corte de cana, carvoarias ou oficinas de costura envolvendo imigrantes. Agora também para vinícolas, produtoras da bebida que, associada ao pão, sacia a sede, mata a fome e, portanto, representa vida boa e farta. O vinho, o “sangue do Senhor”, o primeiro milagre a pedido da Mãe, o casamento do primo.   

O vinho, justo ele, pródigo em ditos populares: “O homem faz o vinho e o vinho refaz o homem”, “Quando o vinho desce, as palavras sobem”, “Ao teu amigo e vizinho, o melhor pão e o melhor vinho”, “O vinho e a mulher fazem o homem perder o juízo”, “O vinho não embriaga, inspira”. E a mais famosa de todas, que merece citação em latim: "in vino veritas" (a verdade está no vinho).

Os trabalhadores baianos foram contratados por uma “empresa” especializada no recrutamento de mão de obra, que no bom português é chamada de “gato”. E uma crueldade: o contratante também é baiano. As vinícolas que usaram mão de obra terceirizada alegam desconhecimento dos fatos. Em 2022, uma delas teve lucro recorde em 112 anos: R$ 500 milhões. E a meta é de R$ 1 bilhão até 2030. Feeling para os negócios, mas não para enxergar um gato entre as vinhas.

Não bastassem os fatos, veio à tona a repugnante narrativa de um vereador patriota gaúcho que ainda não ruminou a derrota eleitoral de 2022, quando os baianos repudiaram fragorosamente o nazi-fascismo. O inominável, em discurso carregado de ódio xenofóbico, sugeriu que em lugar de baianos sejam contratados argentinos, que são “limpos, honestos e não vivem na praia tocando tambor”. Aos patriotas iguais a ele, uma advertência: “Algumas pessoas são como o vinho: ficam melhores com uma rolha na boca”.

 


Antônio Reis é jornalista, ativista
do Grupo Experimental da Academia
 Araçatubense de Letras (AAL)
 e  editor do blog Experimentânea.
Instagram: @antonio_s_reis

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