Fraternidade, sim; fome, não! - Antônio Reis

A Campanha da Fraternidade é uma das importantes iniciativas da Igreja Católica do Brasil, criada no início dos anos 1960, com o propósito de transformar princípios cristãos em solidariedade concreta. A CF foi idealizada pela ala conservadora da Igreja, seduziu progressistas e o rebanho adere ou não, dependendo do tema abordado.

Muitos temas são “espinhosos” para os que interpretam a vida a partir do catecismo cristão branco-hetero-capitalista, que colocam “pátria, família e propriedade” acima de tudo e de todos. Não percebem que podem ser o fermento na massa. Os temas da CF são pautados pelos problemas que clamam por soluções mais urgentes. O deste ano é “Fraternidade e Fome”, o mesmo de 1985. 

Para o secretário-geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom Joel Portella Amado, o tema de 2023 foi escolhido dada à volta do Brasil ao Mapa da Fome da ONU. A explicação do bispo remete aos esforços de governos progressistas para alimentar a população do país que mais produz alimentos, sucedidos por outros que destruíram esse avanço social, retrocedendo a 1985.

A fome referida na Campanha da Fraternidade não é a que se sente entre uma refeição e outra. É a fome dos yanomamis, do gentio preto das periferias, dos desabrigados pelas enchentes; das vítimas do desemprego, do trabalho semiescravo e da LGBTfobia. Estes são famintos porque são vítimas do maior escândalo brasileiro: a desigualdade social.

Ao menor risco de ter seus privilégios ameaçados por um prato de comida, a elite perversa e responsável pela miséria no país derruba governo, prende opositores e, para aprofundar o abismo social, faz reforma trabalhista, reforma da Previdência, PEC da Responsabilidade Fiscal, promove o subemprego disfarçado de “empreendedorismo”.

Pena que a Campanha da Fraternidade dure apenas uma quaresma, tempo de penitência, insuficiente para o entendimento geral da nossa fome histórica e também para um alerta: “Sejais fermento na massa, caso contrário, o pão nosso de cada dia não será suficiente para todos”.

 


Antônio Reis é jornalista, ativista do
Grupo Experimental da Academia 
Araçatubense de Letras (AAL) e  editor
do blog Experimentânea.
Instagram: @antonio_s_reis

 

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