Enfim, é carnaval! - Antônio Reis
Por
não entender certos ritos, tenho dificuldade para apreciar a festa como a
maioria o faz. Não entendo, por exemplo, como pode centenas de pessoas trabalharem
o ano todo para uma escola desfilar 75 minutos na Sapucaí. E na quarta-feira de
cinzas começarem tudo de novo para mais 75 minutos no ano seguinte. O verde e
rosa da Mangueira e o azul e branco da Portela é a diferença que vejo entre
elas, ambas belas e imponentes. Também não entendo porque alguns, como as
baianas, usam tantas vestimentas para desfilar enquanto outras, roupa
nenhuma.
Como
nem tudo é Sapucaí e sambódromos, os blocos de norte a sul, leste a oeste, nos
clubes e avenidas, também me intrigam: piratas, índios, bonecos gigantes, celebridades
da vez, sheiks, palhaços, fadas e negas malucas, todos manguaçados. E por falar
em negas malucas, os homens travestidos de mulher (desejo reprimido?) não
estariam desfilando seu racismo, homofobia e misoginia para a alegria de
geraldinos, arquibaldos e camaroteiros? Bora lá, né? Afinal, carnaval é
subversão da ordem, embora no cotidiano haja tanta desordem para ser
subvertida.
Admito
que o luxo, a alegria, alguns enredos e seus sambas me comovem sim, mas é uma comoção
comedida e fugaz feito bolha de sabão. Se carnaval é um rio que passa na vida
de muita gente e arrasta corações, para mim é um curso d’água turva ao longe. É
bem verdade que quando jovem tentei um mergulho imaginando águas cristalinas,
mas decididamente não levo jeito pra coisa. O bom mesmo do carnaval é o
feriadão, que aproveito para faxina mental.
Antônio Reis é jornalista, ativista do
Grupo Experimental da Academia
Araçatubense de Letras (AAL) e
editor do blog Experimentânea.
Instagram: @antonio_s_reis

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