Enfim, é carnaval! - Antônio Reis

Finalmente, as coisas estão voltando ao normal nesse Brasilzão de meu Deus, não apenas com o entendimento de que a Terra é redonda, mas também com o carnaval reocupando seu lugar no calendário e na vida do povão. A última folia pra valer foi em 2020. Em 2021, a covid-19 botou água no chope e no ano passado teve samba, frevo e axé em abril, como nunca antes. Agora, livre dos males ameaçadores dos últimos anos, o Brasil volta a ser o país do carnaval.

Por não entender certos ritos, tenho dificuldade para apreciar a festa como a maioria o faz. Não entendo, por exemplo, como pode centenas de pessoas trabalharem o ano todo para uma escola desfilar 75 minutos na Sapucaí. E na quarta-feira de cinzas começarem tudo de novo para mais 75 minutos no ano seguinte. O verde e rosa da Mangueira e o azul e branco da Portela é a diferença que vejo entre elas, ambas belas e imponentes. Também não entendo porque alguns, como as baianas, usam tantas vestimentas para desfilar enquanto outras, roupa nenhuma. 

Como nem tudo é Sapucaí e sambódromos, os blocos de norte a sul, leste a oeste, nos clubes e avenidas, também me intrigam: piratas, índios, bonecos gigantes, celebridades da vez, sheiks, palhaços, fadas e negas malucas, todos manguaçados. E por falar em negas malucas, os homens travestidos de mulher (desejo reprimido?) não estariam desfilando seu racismo, homofobia e misoginia para a alegria de geraldinos, arquibaldos e camaroteiros? Bora lá, né? Afinal, carnaval é subversão da ordem, embora no cotidiano haja tanta desordem para ser subvertida.  

Admito que o luxo, a alegria, alguns enredos e seus sambas me comovem sim, mas é uma comoção comedida e fugaz feito bolha de sabão. Se carnaval é um rio que passa na vida de muita gente e arrasta corações, para mim é um curso d’água turva ao longe. É bem verdade que quando jovem tentei um mergulho imaginando águas cristalinas, mas decididamente não levo jeito pra coisa. O bom mesmo do carnaval é o feriadão, que aproveito para faxina mental.


Antônio Reis
é jornalista, ativista do
 Grupo Experimental da Academia
Araçatubense de Letras (AAL) e
 editor do blog Experimentânea.
Instagram: @antonio_s_reis

 

 

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