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31 de março, dia da fake news - Antônio Reis (*)

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O dia da mentira deveria ser antecipado para 31 de março e ter novo nome: dia da fake news. Explicando: minha geração foi adestrada nas escolas com partido de que neste dia, no ano de 1964, militares enviados por Deus, em nome da família e em defesa da pátria, botaram os comunistas e os corruptos para correr. E mais: botando os comunas pra correr, os milicos preservaram a democracia. Em meus primeiros anos escolares, idos de 1970, os alunos eram levados ao pátio recreativo para cantar o Hino Nacional todas as sextas-feiras após as aulas. Também havia a declamação de quadrinhas rimadas exaltando “valores patrióticos” e heróis nacionais. Fico pensando se os professores acreditavam naquelas tolices ou tinham medo de que lhes cortassem a língua. Em 1974, nos dez anos da “revolução que salvou o Brasil”, foi uma semana de cantoria. Hino Nacional, da Independência, da Bandeira, da Proclamação da República. E se não bastasse, tinha também a ufanista “Eu te amo meu Brasil”, que o rádio e televi...

Inacreditável, se não fosse verdadeiro! - Antônio Reis (*)

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Não gostaria, juro que não gostaria, de começar um texto assim: “Quando pensei que já tinha visto tudo...”. É clichezão de rede social, mas, depois de muito matutar, não teve jeito. O que ainda não tinha visto? Comprar ovo de Páscoa à prestação. O preço do cacau disparou no mercado internacional, obrigando os coelhos a botarem ovos a preços de ouro. A família consome o produto num dia e passa três meses, ou mais, pagando a fatura do cartão de crédito. Realmente, a grande sacada do capitalismo é convencer as pessoas a comprarem o que não necessitam pra pagar com o que não têm. Aí aparecem as soluções milagrosas: bancos, financeiras, cartão de crédito, PIX. O consumidor compra um ovo e paga três ou mais. Pior que beber fiado em boteco de chafarica, mas se instituição financeira pode, por que o galego dono da baiuca não? Admito financiamento longo para pagar o que é imprescindível para o bem-estar das pessoas, como casa própria, curso universitário, carro quando necessário para o trabalho...

Molho nordestino para o mundo - Antônio Reis (*)

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Em meados de janeiro escrevi uma crônica otimista quanto ao sucesso de "O Agente Secreto" na premiação do Oscar 2026. Na noite de domingo (15/03), com Malbec na taça, expectativa a mil, vi o filme nacional ser superado por outros tão bons quanto. Torci muito, mas não me sinto frustrado pelo insucesso de "O Agente Secreto". O prazer de estar conectado a uma enorme corrente de torcedores, em clima comparado a uma final de Copa do Mundo, valeu a pena. No texto de janeiro, fiz constar meu apego ao cinema, que por muito tempo foi o entretenimento de minha preferência. Apesar disso, os filmes de que gostava não eram indicados ao Oscar. Meu gosto não coincide com a lógica mercadológica de Hollywood e da Academia. Comecei a prestar atenção a essa premiação quando os brasileiros passaram a constar da lista de indicados: "Quatrilho", "Cidade de Deus", "O que é isso companheiro", "Central do Brasil". Também torci muito por eles. Até  que...

De supercraque a bajulador de condenado por abuso sexual - Antônio Reis (*)

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A imagem de Lionel Messi se refestelando com Donald Trump em comemoração do título do Inter Miami, no qual joga o argentino, é de causar engulhos. Messi presenteou o Capiroto com mimos alusivos ao campeão da Major League Soccer, o inexpressivo campeonato estadunidense de futebol. A solenidade se deu na toca do Tinhoso (Casa Branca). Pessoas talentosas e com capacidade de formar opinião, como é Messi, deveriam ser mais responsáveis e seletivas. A imagem dividiu os próprios argentinos. Alguém avisou Messi, ídolo de muitas crianças, que o Capiroto foi condenado por abuso sexual e sobre ele paira consistente acusação de pedofilia? Que é sequestrador de autoridades, é exterminador de povos e nações e tudo faz, junto com seu comparsa que governa Israel, para provocar a terceira guerra mundial? Ou Messi acredita nos "bons propósitos" de quem pretende varrer os palestinos do mapa para transformar a Faixa de Gaza em balneário de luxo? O supercraque argentino é tolo, é mal informado, q...

Mansidão de Lula e brabeza de Ciro - Antônio Reis

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Semana passada, Lula contestou Tiago Eltz, repórter da Globo, que tentou distorcer uma fala dele numa entrevista coletiva em Nova Delhi (Índia). "O senhor disse que no encontro com o presidente Trump que o Brasil pode receber criminosos". O "nine”, com tranquilidade e educação, contestou: "Você não ouviu isso aqui". Na explicação ao repórter, Lula disse que falara a Trump que o Brasil quer punir com cadeia pessoas que cometeram crimes aqui e fugiram pra Disney. "Se eu aceito que você faça a pergunta do jeito que está fazendo, dá a impressão de que eu falei isso. Mas eu não falei isso", continuou o “nine”. O jornalista perdeu o rebolado, tentou corrigir, pagou mico e virou meme nas redes. O ocorrido me fez retroagir a 1998, quando Ciro Gomes foi candidato a presidente pela primeira vez. Eu era repórter da Folha da Região (Araçatuba-SP), então potência no Interior Paulista. Fui entrevistá-lo em Penápolis. Fui animado, mas com pé atrás, já que o presiden...

Carnaval, águas de março e rachadinhas - Antônio Reis (*)

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Nunca gostei do clichê "no Brasil, o ano começa depois do Carnaval". Tenho a impressão de que o autor passava por crise de originalidade e, mesmo sem redes sociais, pois a dita-cuja é antiga, a pérola passou de boca em boca através dos tempos sem perder o seu propósito. Imagino o "pensador" deste clássico em 2026: defensor da escala 6x1; pregoeiro do empreendedorismo, do "trabalho tem, não trabalha quem não quer”, "o País não vai pra frente porque tem muitos feriados". Sou seletivo em citações nos meus escritos e no meu cotidiano, pois suspeito de que muita coisa é sofisma que contempla tão somente coachs e a galera da autoajuda. Considero Carnaval uma pausa como a Semana Santa, o Natal, Ano Novo e todos os feriadões. Já trabalhei no Réveillon, Natal, Carnaval, Semana Santa, 1º de Maio, datas especiais (Dia das Mães, dos Pais) e todos os feriados que o mais arrojado dos empreendedores e coachs possam imaginar. Eis que para mim, o ano começa em 1º de j...

Vidas humanas também importam - Antônio Reis

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No último dia de janeiro assisti em teatro, pela terceira vez, “O auto da Compadecida”, a mais conhecida obra do mestre Suassuna. A trama, numa cidade qualquer do interior do Nordeste, começa com a trapaça dos amigos João Grilo e Chicó para que o padre encomende a alma de um cachorro morto. A dona do animal é a mulher de um comerciante influente, que colabora com a igreja nas obras sociais e com pequenos “privilégios” ao padre. O religioso se dobra à absurda proposta mediante a promessa de generosa ajuda financeira. A trama é uma afronta jocosa aos preceitos da Igreja. Saí do teatro recordando do que me ocorrera naquela manhã, quando pedalava próximo ao Centro de Araçatuba. Quase fui atropelado por um carro que me “fechou” e seguiu seu destino. Mesmo o veículo em velocidade incompatível para o local, pude ver no vidro traseiro um enorme adesivo, com a estampa de um cachorro e a frase: “Eu freio para animais”. Minha formação humanista, avessa a igreja e religião, obriga-me a respeitar t...